Domingo, Janeiro 30, 2005

Será positivo o individualismo?

«...Penso que é essencial distinguir claramente entre o individualismo, uma corrente filosófica, e o egoísmo, uma atitude psicológica. O individualismo é a corrente que considera a pessoa humana, os seus direitos e as suas necessidades, como tendo precedência sobre quaisquer entidades colectivas, sejam elas a tribo, a família ou o Estado, no que diz respeito aos processos de decisão morais e políticos. Esta escola nasceu dentro da tradição liberal, a qual afirma que o Estado deve ser visto como um sistema de imposições apenas justificáveis na medida que protege a liberdade e os direitos do indivíduo, uma vez que, segundo os seus expoente mais radicais, a sociedade é apenas a associação voluntária de um grupo de indivíduos. A este pensamente contrapõe-se a doutrina dos teóricos do Estado (Hegel em particular), bem como certas correntes do marxismo, que refutam a tentativa de dissociar o indivíduo das relações de produção em que está inserido.»

Entrevista a Maria Filoména Mónica in notícias magazine 30 de Jan 2005, suplemento do Diário de Notícias

Sexta-feira, Janeiro 28, 2005

Inteligências...

«Que truque de magia nos faz inteligentes? O truque é que não há nenhum truque. O poder da inteligência provém da nossa vasta diversidade e não de nenhum princípio único, perfeito. A nossa espécie criou muitos métodos eficazes mas imperfeitos e cada um de nós desenvolve individualmente ainda outros. No fim, são poucas as nossas acções e decisões que dependem de um único mecanismo. Em vez disso, elas emergem de conflitos e negociações entre sociedades de processos que se questionam constantemente uns aos outros.»
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MINSKY, Marvin, The Society of Mind, 1986, cit. in CHOO, Chun Wei, Gestão de Informação para a Organização Inteligente: A arte de explorar o meio ambiente, trad. de Ana Fonseca, Lisboa, Editorial Caminho, col. Das Bibliotecas & Informação, 2003.

Quarta-feira, Janeiro 26, 2005

Urbanismo metafórico

Outro dia decidi ir dar uma volta por Lisboa, perder-me pela cidade. Quando era pequeno tinha medo do ambiente metropolitano, fui criado nos arredores de Lisboa, na desengonçada e suburbana localidade de Linda-a-Velha no concelho de Oeiras. As cidades eram o papão da minha infância, apesar de não viver num ghetto, vivia perto dele e frequentei até aos 15 anos escolas parelhas com o famigerado “Bairro dos Húngaros” (por vezes denominado de pedreira), uma espécie de China Town dos cabo-verdianos. Porém, este não era o único bairro degradado da região, detínhamos ainda em Linda-a-Velha o Alto de Santa Catarina, o Alto de Barronhos entre Carnaxide e Linda-a-Velha e o Bairro do Gato Preto entre Algés e Miraflores. Estes bairros eram compostos essencialmente por emigrantes das antigas colónias africanas, todavia, comportavam alguns grupos de ciganos e escassos grupos de brancos (nesta altura - finais dos anos 80 inícios dos anos 90 - ainda não existia emigração de Leste). A maior parte gente fugida de um país em guerra que procurava auxílio, uma vida nova num país ainda em mudança[1]. Eram os filhos destes emigrantes, chegados após o 25 de Abril, que surgiam como o principal problema; inseridos num hiato entre a civilização europeia e africana, convivendo com jovens brancos na escola, mais capacitados (em parte porque tinham uma cultura europeia e pais que falavam português) e bem vestidos – o pobre menino negro sentia-se o humilhado… a marginalidade era o caminho mais fácil. O Bairro dos Húngaros era sem dúvida o mais perigoso, a meu ver por duas situações: em primeiro lugar porque era o de maiores dimensões e, em segundo lugar, porque comportava quase só exclusivamente cabo-verdianos – não existia misturas, enquanto que, nos outros bairros, tínhamos guineenses, angolanos, moçambicanos, ciganos, brancos e cabo-verdianos também.
A minha infância era uma constante correria para casa, fugindo aos assaltos; fui adquirindo, com o tempo, algum conhecimento: conhecia-lhes as manhas, pelas feições, pelos gestos sabia quais eram os indivíduos perigosos e, o mais importante, aprendi a escapulir-me, se bem que se antes não ter experimentado umas boas estaladas e uma ou outra facada.
Detestava o ambiente urbano, sobretudo por isso, pelo clima constante de medo; na altura achava o Alentejo – terra dos meus pais – um paraíso idílico, onde podia passar noite e dia nas ruas e criei imensos amigos, o que era raro ter aqui em Lisboa.
Quando fiz quinze anos os meus pais decidiram colocar-me numa boa Escola – curiosamente na altura em que os “bairros de lata” começaram a ser desmantelados e transferidos de Linda-a-Velha -, fui parar ao Rainha Dona Amélia em Lisboa[2]; está claro chumbei, vinha dos subúrbios, era mal-educado, e não conseguia estar quieto numa aula – simplesmente esse não era o sistema das escolas da minha zona. Quando “regressei” fui para a escola secundária de Miraflores a melhorzinha da altura para aqueles lados; contudo, já quase não existiam os bairros, o ambiente não era o mesmo, também, poucos eram, os “marginais” que chegavam ao 10º ano. Apesar da melhoria do ambiente, de algum sucesso escolar, finalmente, e até amoroso; achava a cidade um lugar abjecto.
Depois, conheci-te, enquanto andava na Universidade, e por fim abri-me à cidade, passei a adorar percorre-la de noite e de dia, observar… gosto de a observar. Mais tarde compreendi que se queria continuar a estudar, a ter conhecimento, e a ter cultura era inexorável a permanência em Lisboa, criei também um grupo de amigos estável que em muito contribui para que me sinta bem com tal decisão. Porém, foste tu a acendedalha; lembras-te naquele dia que fomos ao Castelo de São Jorge, senti-me noutra dimensão, parecia que estava a entrar numa aldeia dentro de Lisboa – sempre tive tendência para relacionar castelos com terrinhas… foi mágico. Como te amava tentei competir contigo, urbanizei-me, passei a ter vida nocturna, conversas de café, cinemas, teatros, etc. Bem, outro dia decidi fazer o caminho que fizemos da última vez que nos encontramos propositadamente, que, ao fim ao cabo, era o caminho para tua casa. È extraordinário que não me recordava nada dele, tanto que me perdi. É impressionante que, com a nossa discussão, não observei as ruas e ruelas; foi um ecfrático, adorei subir pelo Martim Moniz, serpenteando por casas antigas, todas diferentes, em direcção ao São José e, de um momento para outro, chegar aquele nicho, aquele praça onde se destaca a antiga escola (ainda dos tempos da monarquia), agora biblioteca municipal, e o pequeno parque em frente, onde os reformados, como na terra dos meus avós, jogam às cartas. Torneei o São José, fui ao Campo dos Mártires da Pátria, foi o começo de uma longa caminhada por Lisboa que só terminou exausta, mas extenuada à meia-noite, e que começou… no dia em que me levas-te ao Castelo.
- Roberto, querido já tomas-te o comprimido para a esquizofrenia? Não te quero ver por aí perdido por Lisboa, falando com pessoas… pessoas que não existem.

[1] Portugal entrava numa nova fase, mudara de regime em Abril de 74 e tentava agora sobreviver pela primeira vez sem as suas seculares colónias, a muleta do país desde 1415 – agora estávamos virados para a Europa… a Comunidade Europeia acolhei-nos de braços… abertos.
[2] Provavelmente a melhor escola pública da capital em inícios dos anos 90, era lá que estavam os filhos das grandes famílias lisboetas, a partir de 1998, em parte pela degradação do Espaço ( um palácio do século XVIII), a escola foi perdendo alguns alunos e professores – deixou de estar no top. A minha adaptação à escola foi um fracasso, não toleraram a minha sagacidade; a escrita nas paredes da escola de FP25 foi a gota de água.

Segunda-feira, Janeiro 24, 2005

Vislumbre de esperança?

«Num quarto sórdido, em cujas paredes pintadas os hóspedes deviam escarrar. Separado do quarto contíguo, onde se ouviam vozes, por uma divisória insuficiente, numa atmosfera impregnada de maus cheiros, jazia, numa cama ligeiramente afastada da parede, um corpo com uma mancha por cima. Uma das mãos desse corpo, que mais parecia um ancinho, estranhamente ligada a uma espécie de comprido fuso, alongara-se pela coberta. A cabeça, reclinada no travesseiro, deixava ver os cabelos ralos, que o suor colava às fontes, e uma testa por assim dizer transparente.»
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TOLSTOI, Leão, Ana Karenina, trad. de João Neto, actualizado, anotado e corrigido por Maria Ivanovna Miklaia, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2003.

Sábado, Janeiro 22, 2005


Abertura solene "1812" op.49. Peter Iljtsch Tschaikowsky Posted by Hello

Quinta-feira, Janeiro 20, 2005

E a vela ardia, ardia...

Noite de Inverno

Tormenta, tormenta sobre toda a terra
até aos derradeiros limites.
Uma vela ardia sobre a mesa,
uma vela ardia.
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Como um bando de mosquitos
de Verão, em volta de uma chama,
assim os flocos de neve irrompiam
sobre o caixiho da janela.
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A tormenta imprimia sobre o vidro
círculos e flechas.
Uma vela ardia sobre a mesa,
uma vela ardia.
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Nas águas-furtadas iluminadas
deitavam-se as sombras.
Braços cruzados, pernas cruzadas,
destinos cruzados.
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Caíam de súbito ao chão
dois sapatinhos de criança,
e da chama a cera em lágrimas
gotejava como de costume.
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E tudo numa névoa de neve
idosa e branca se perdia.
Uma vela ardia sobre a mesa,
uma vela ardia.
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De um canto, sobre a vela, um sopro,
e a febre da tentação
como um anjo erguia duas asas
em forma de cruz.
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A tormenta durou todo o Fevereiro,
e ininterruptamente
uma vela ardia sobre a mesa,
uma vela ardia.
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PASTERNAK, Boris, O Doutor Jivago, Mem Martins, Pubicações Europa-América, 2002, pp.486-7

Quarta-feira, Janeiro 19, 2005


Uma grande figura. Fiodor Dostoiévski Posted by Hello

Inteligências...

«A inteligência é a construção hipotética medida pelos testes de inteligência devidamente estandardizados [...]»
«A inteligência é uma extensão da adaptação biológica, caracterizada por dois tipos particulares de habilidade: a habilidade para assimilar, especialmente em resposta a processos internos, e a habilidade para acomodar, especialmente em resposta a estimulações vindas do ambiente.»
«A inteligência de um indivíduo é constituída pelo repertório total individual das respostas problem-solving e também cognitivo-discriminatórias que são usuais e, portanto, esperadas, a um determinado nível etário e na larga unidade de população a que pertence esse dado indivíduo [...]»
«A inteligência consiste na capacidade para empreender actividades que sejam caracterizadas por dificuldade, complexidade, abstração, economia, adaptação ao objectivo, valor social e emergência de componentes originais [...]»
«A inteligência é a capacidade para resolver problemas novos, quando instinto e hábito se mostram inadequados [...]»
«A inteligência é a capacidade global para agir intencionalmente, para pensar em termos racionais e para saber tratar proficuamente com o ambiente [...]»
TRENTINI, Giancarlo, "Quociente intelectual", in Comunicação - Cognição, vol. 34, Enciclopédia Einaudi, s.l., Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000

Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

«Em Portugal nada acontece. Vivemos paralisados pelo medo da energia dos outros, pelo medo de não ter uma "boa imagem", pelo medo de "não estar à altura".»

José Gil, filósofo e professor numa universidade que tão bem conhecemos.