Outro dia decidi ir dar uma volta por Lisboa, perder-me pela cidade. Quando era pequeno tinha medo do ambiente metropolitano, fui criado nos arredores de Lisboa, na desengonçada e suburbana localidade de Linda-a-Velha no concelho de Oeiras. As cidades eram o papão da minha infância, apesar de não viver num ghetto, vivia perto dele e frequentei até aos 15 anos escolas parelhas com o famigerado “Bairro dos Húngaros” (por vezes denominado de pedreira), uma espécie de China Town dos cabo-verdianos. Porém, este não era o único bairro degradado da região, detínhamos ainda em Linda-a-Velha o Alto de Santa Catarina, o Alto de Barronhos entre Carnaxide e Linda-a-Velha e o Bairro do Gato Preto entre Algés e Miraflores. Estes bairros eram compostos essencialmente por emigrantes das antigas colónias africanas, todavia, comportavam alguns grupos de ciganos e escassos grupos de brancos (nesta altura - finais dos anos 80 inícios dos anos 90 - ainda não existia emigração de Leste). A maior parte gente fugida de um país em guerra que procurava auxílio, uma vida nova num país ainda em mudança
[1]. Eram os filhos destes emigrantes, chegados após o 25 de Abril, que surgiam como o principal problema; inseridos num hiato entre a civilização europeia e africana, convivendo com jovens brancos na escola, mais capacitados (em parte porque tinham uma cultura europeia e pais que falavam português) e bem vestidos – o pobre menino negro sentia-se o humilhado… a marginalidade era o caminho mais fácil. O Bairro dos Húngaros era sem dúvida o mais perigoso, a meu ver por duas situações: em primeiro lugar porque era o de maiores dimensões e, em segundo lugar, porque comportava quase só exclusivamente cabo-verdianos – não existia misturas, enquanto que, nos outros bairros, tínhamos guineenses, angolanos, moçambicanos, ciganos, brancos e cabo-verdianos também.
A minha infância era uma constante correria para casa, fugindo aos assaltos; fui adquirindo, com o tempo, algum conhecimento: conhecia-lhes as manhas, pelas feições, pelos gestos sabia quais eram os indivíduos perigosos e, o mais importante, aprendi a escapulir-me, se bem que se antes não ter experimentado umas boas estaladas e uma ou outra facada.
Detestava o ambiente urbano, sobretudo por isso, pelo clima constante de medo; na altura achava o Alentejo – terra dos meus pais – um paraíso idílico, onde podia passar noite e dia nas ruas e criei imensos amigos, o que era raro ter aqui em Lisboa.
Quando fiz quinze anos os meus pais decidiram colocar-me numa boa Escola – curiosamente na altura em que os “bairros de lata” começaram a ser desmantelados e transferidos de Linda-a-Velha -, fui parar ao Rainha Dona Amélia em Lisboa
[2]; está claro chumbei, vinha dos subúrbios, era mal-educado, e não conseguia estar quieto numa aula – simplesmente esse não era o sistema das escolas da minha zona. Quando “regressei” fui para a escola secundária de Miraflores a melhorzinha da altura para aqueles lados; contudo, já quase não existiam os bairros, o ambiente não era o mesmo, também, poucos eram, os “marginais” que chegavam ao 10º ano. Apesar da melhoria do ambiente, de algum sucesso escolar, finalmente, e até amoroso; achava a cidade um lugar abjecto.
Depois, conheci-te, enquanto andava na Universidade, e por fim abri-me à cidade, passei a adorar percorre-la de noite e de dia, observar… gosto de a observar. Mais tarde compreendi que se queria continuar a estudar, a ter conhecimento, e a ter cultura era inexorável a permanência em Lisboa, criei também um grupo de amigos estável que em muito contribui para que me sinta bem com tal decisão. Porém, foste tu a acendedalha; lembras-te naquele dia que fomos ao Castelo de São Jorge, senti-me noutra dimensão, parecia que estava a entrar numa aldeia dentro de Lisboa – sempre tive tendência para relacionar castelos com terrinhas… foi mágico. Como te amava tentei competir contigo, urbanizei-me, passei a ter vida nocturna, conversas de café, cinemas, teatros, etc. Bem, outro dia decidi fazer o caminho que fizemos da última vez que nos encontramos propositadamente, que, ao fim ao cabo, era o caminho para tua casa. È extraordinário que não me recordava nada dele, tanto que me perdi. É impressionante que, com a nossa discussão, não observei as ruas e ruelas; foi um ecfrático, adorei subir pelo Martim Moniz, serpenteando por casas antigas, todas diferentes, em direcção ao São José e, de um momento para outro, chegar aquele nicho, aquele praça onde se destaca a antiga escola (ainda dos tempos da monarquia), agora biblioteca municipal, e o pequeno parque em frente, onde os reformados, como na terra dos meus avós, jogam às cartas. Torneei o São José, fui ao Campo dos Mártires da Pátria, foi o começo de uma longa caminhada por Lisboa que só terminou exausta, mas extenuada à meia-noite, e que começou… no dia em que me levas-te ao Castelo.
- Roberto, querido já tomas-te o comprimido para a esquizofrenia? Não te quero ver por aí perdido por Lisboa, falando com pessoas… pessoas que não existem.