Plataforma de Berna - um espaço livre de ideias, opiniões e divulgação cultural
No topo da montanha cinzenta, debaixo dum pico severo, borbulhava, saído duma fenda da rocha, um pequeno regato que era alimentado pela neve que as sombras ali conservavam mesmo no Verão. De vez em quando morria por completo e deixava ver, no fundo, pedras nuas e algas secas. Mas quase sempre, jorrava fresco, transparente e delicioso. A Pérola. John Steinbeck
Domingo, Maio 29, 2005
Quarta-feira, Maio 25, 2005
Teachers
Em 1963 Fellini deu ao prelo um filme bizarro para a época – 8 e ½ – um filme que passava para o grande ecrã os processos inerentes a realização de um filme, a relação entre os actores os técnicos, os meios, os produtores, os patrocinadores, os argumentistas, os cenógrafos e o mundo exterior.
La nuit américane[1] surge precisamente uma década após a película de Fellini, uma coincidência premeditada, ou não, por Truffaut, um profundo conhecedor e amante de cinema (a cena do menino que rouba as fotografias de Citizen Kane[2] pretende transmitir esse amor). Ao contrário do filme do cineasta italiano, este último é mais acessível, não salta constantemente de cenas e de personagens e não entra em divagações profundamente intimistas, apenas um pouco; permite-nos inteiramente seguir a sua linha de pensamento. Truffaut consegue assim um filme, suave, com algum humor e perfeitamente representativo da realidade por detrás das câmaras.
La nuit américane[1] surge precisamente uma década após a película de Fellini, uma coincidência premeditada, ou não, por Truffaut, um profundo conhecedor e amante de cinema (a cena do menino que rouba as fotografias de Citizen Kane[2] pretende transmitir esse amor). Ao contrário do filme do cineasta italiano, este último é mais acessível, não salta constantemente de cenas e de personagens e não entra em divagações profundamente intimistas, apenas um pouco; permite-nos inteiramente seguir a sua linha de pensamento. Truffaut consegue assim um filme, suave, com algum humor e perfeitamente representativo da realidade por detrás das câmaras.
[1] Denominação usada no processo cinematográfico que permite filmar cenas nocturnas à luz do dia.
[2] O Filme do século, dirigido e interpretado por Orson Welles em 1941.
Terça-feira, Maio 24, 2005
Em torno de Erich Maria Remarque
Erich Maria Remarque[1] (1899-1970) é um dos grandes romancistas alemães da primeira metade do século XX, a par com Hermann Hesse (1877-1962) e Thomas Mann (1875-1955). Contudo este escritor tem algo que o distingue dos outros – no que diz respeito aos temas escolhidos – a escrita sobre a Alemanha do seu tempo. Tanto Hesse com Mann, apesar de serem de uma geração um pouco mais velha, tentaram sempre “escapar”ao assunto da guerra e do regime nazi nos seus livros. Optam sempre por retractar, quando escreverem sobre histórias passadas no seu país, uma Alemanha bucólica do ante guerras servindo-se, muitas vezes dos característicos contos bávaros. Se por uma lado se compreende essa faceta em Mann, muito arreigado às tradições, apesar de se ter incompatibilizado com o regime de Hitler[2], nunca o afrontou abertamente (ao contrário de grande parte da sua família, entre eles o seu irmão Heinrich), no que se refere a Hesse poderá ser explicada pelo seu distanciamento em relação a Alemanha, Hermann partiu para a Suiça[3] em 1912, escapando assim ao período negro que iniciou em 1914 e terminou em 1945. Hesse era um ser vocacionado para o misticismo, amante das culturas orientais, preocupado com uma escrita de mensagem universal, um clarim de espiritualidade, de coesão entre a mente e o corpo… não quis tocar no assunto da guerra, não obstante de o ter feito na sua obra, criticou abertamente o nacionalismo e a belicosidade alemã.
Remarque, pelo contrário, opta por descrever minuciosamente o tempo da guerra: a vida dos soldados, dos civis, dos emigrantes forçados, dos exilados; explorando os sentimentos vividos no ante, durante e pós as Grandes Guerras. Erich, a oposto dos outros dois escritores referidos, viveu os conflitos de perto – combateu em 1914-18, e andou fugido em 1939-45. Os seus livros são uma preciosa fonte para os historiadores contemporâneos, que se dedicam ao estudo dos dois conflitos mundiais. Com um estilo distinto de Pasternak em Dr. Jivago – (outro exemplo de romance/fonte histórica), escritor mais vocacionado para a descrição e observação intimista e pessoal –, Remarque opta por relatar longas conversas sobre a vida e sobre a morte, sobre a resignação e a vontade, muitas delas com um realismo intrínseco, claramente denunciadoras de experiências do autor, que, tal como Primo Lévi, experimentou, o que escreveu, na primeira pessoa.
Remarque, pelo contrário, opta por descrever minuciosamente o tempo da guerra: a vida dos soldados, dos civis, dos emigrantes forçados, dos exilados; explorando os sentimentos vividos no ante, durante e pós as Grandes Guerras. Erich, a oposto dos outros dois escritores referidos, viveu os conflitos de perto – combateu em 1914-18, e andou fugido em 1939-45. Os seus livros são uma preciosa fonte para os historiadores contemporâneos, que se dedicam ao estudo dos dois conflitos mundiais. Com um estilo distinto de Pasternak em Dr. Jivago – (outro exemplo de romance/fonte histórica), escritor mais vocacionado para a descrição e observação intimista e pessoal –, Remarque opta por relatar longas conversas sobre a vida e sobre a morte, sobre a resignação e a vontade, muitas delas com um realismo intrínseco, claramente denunciadoras de experiências do autor, que, tal como Primo Lévi, experimentou, o que escreveu, na primeira pessoa.
[1] Pseudónimo de Erich Paul Remark
[2] Em 1933, Thomas Mann, pressionado pela família, a maior parte na lista negra do nazismo, partiu para a Suiça e depois para os EUA, apesar de tudo Mann mantinha alguma credibilidade junto do regime, o seu prémio Nobel de 1929, pesava bastante.
[3] País que acabaria por adoptar, naturalizando-se cidadão helvético em 1923
Segunda-feira, Maio 23, 2005
Quinta-feira, Maio 19, 2005
O narrador dos iluminados
. Decorre, durante este mês, um ciclo de cinema dedicado a François Truffaut na Cinemateca Portuguesa. Truffaut foi um dos percursores da Nouvelle Vague e, acima de tudo, um profundo amante da Sétima Arte – um compulsivo consumidor e realizador de cinema (a sua larga lista de filmes assim o comprova) que viveu totalmente embrenhado neste meio. Desde a adolescência, quando escrevia críticas de cinema em vez de frequentar a escola (que abandonou aos 14 anos), à sua morte esteve sempre rodeado de bobines, câmaras. actrizes, actores, realizadores, produtores, etc. Trata-se, sem dúvida, de uma homenagem a um grande cinéfilo.
Quarta-feira, Maio 18, 2005
Erich Kahn aus Sintra
Envolto num profundo sentimento de introspecção, decidi visitar a exposição sobre a obra de Erich Kahn no Museu de Arte Moderna de Sintra (MAMS)[1].
Kahn faz parte de infortunada geração de artistas judeus alemães cujo despontar coincidiu com o surgimento do Nacional Socialismo, tornando-se na denominada “Geração Esquecida”.
A obra de Erich Kahn é essencialmente escura e sombria – o artista usa, grosso modo tons escuros e pinceladas fortes e carregadas. Transmite, desta forma, ao visitante um sentimento de escuridão, poluição, vislumbramos uma imensa nuvem escura que cobre o globo; uma espécie de universo de Kafka, mundo intenso, grosseiro e brutal. O enquadramento à obra de Kahn é excelente, a exposição encontra-se dividida em vários espaços – com textos de apoio a fotografias e algumas obras de arte (designadamente na área dedicada à "Arte Degenerada") – que retractam, por exemplo, a situação alemã entre guerras e a ascensão do nazismo; outro dedicado à repressão do governo do III Reich aos novos movimentos artísticos, tais como o expressionismo (estilo também adoptado por Kahn), bem patente na “contra-exposição” de 1937 denominada de “Entartete Kunst”, a "Arte Degenerada", que ridicularizava os artistas vanguardistas. Ao longo do MAMS podemos ver ainda pequenos nichos que incidem, sobretudo, no sofrimento do povo judeu durante o jugo nazi – relatos de crianças judias francesas sobre a ocupação alemã; cartazes que explicitam os minuciosos cálculos de Himmler sobre o número de judeus existentes em todos os países da Europa[2] e o seu plano de extermino e por fim uma visão contemporânea por parte de um artista português, descendente de judeus alemães (Daniel Blaufuks), uma mensagem essencialmente visual – fotografia e curta-metragem.
È sem dúvida uma boa exposição e merece, de todo, ser visitada, podendo, muito bem, ser complementada com a mostra de fotografias do ghetto de Varsóvia que está no Goethe Institut de Lisboa.
[1] Obras pertencentes à Colecção Berardo.
[2] Portugal tinha 3 mil.
Kahn faz parte de infortunada geração de artistas judeus alemães cujo despontar coincidiu com o surgimento do Nacional Socialismo, tornando-se na denominada “Geração Esquecida”.
A obra de Erich Kahn é essencialmente escura e sombria – o artista usa, grosso modo tons escuros e pinceladas fortes e carregadas. Transmite, desta forma, ao visitante um sentimento de escuridão, poluição, vislumbramos uma imensa nuvem escura que cobre o globo; uma espécie de universo de Kafka, mundo intenso, grosseiro e brutal. O enquadramento à obra de Kahn é excelente, a exposição encontra-se dividida em vários espaços – com textos de apoio a fotografias e algumas obras de arte (designadamente na área dedicada à "Arte Degenerada") – que retractam, por exemplo, a situação alemã entre guerras e a ascensão do nazismo; outro dedicado à repressão do governo do III Reich aos novos movimentos artísticos, tais como o expressionismo (estilo também adoptado por Kahn), bem patente na “contra-exposição” de 1937 denominada de “Entartete Kunst”, a "Arte Degenerada", que ridicularizava os artistas vanguardistas. Ao longo do MAMS podemos ver ainda pequenos nichos que incidem, sobretudo, no sofrimento do povo judeu durante o jugo nazi – relatos de crianças judias francesas sobre a ocupação alemã; cartazes que explicitam os minuciosos cálculos de Himmler sobre o número de judeus existentes em todos os países da Europa[2] e o seu plano de extermino e por fim uma visão contemporânea por parte de um artista português, descendente de judeus alemães (Daniel Blaufuks), uma mensagem essencialmente visual – fotografia e curta-metragem.
È sem dúvida uma boa exposição e merece, de todo, ser visitada, podendo, muito bem, ser complementada com a mostra de fotografias do ghetto de Varsóvia que está no Goethe Institut de Lisboa.
[1] Obras pertencentes à Colecção Berardo.
[2] Portugal tinha 3 mil.
Domingo, Maio 15, 2005
Implícito para quem quer estar implícito
. Foi mais ou mesmos por esta altura que há um ano vi Os Sonhadores de Bernardo Bertolucci. Decidi agora falar sobre este filme porque provavelmente daqui a uns anos perderá a magia – é um daqueles filmes geracionais. Bertolucci retrata um período conturbado, os anos 60, mais propriamente o Maio de 68 parisiense. A década de 60 continua a manter aquela aura revolucionária e de rebeldia – uma espécie de 10 anos em que se podia tudo, em que se experimentava a universalidade, os breves anos em que o Homem se sentiu um Deus (bem sabemos que não foi bem assim, é que hoje em dia somos mais livres, porém, é inegável o poder, tal qual Abracadabra, de dizer anos 60).
Esta película é inegavelmente um filme polémico, um regresso ao “crime” produzido em 70 e um dos símbolos da liberdade sexual – O último tango em Paris; sem o rubor e alvoroços deste Os sonhadores transmitem de novo uma mensagem de anti-trâmites, contudo, com uma luz ao fundo do túnel… este filme acaba por difundir uma ideia de positividade da vida, ao fim ao cabo trata de jovens. Tal como o fez no Último Tango o realizador italiano voltou a criar um ambiente claustrofóbico. A acção passa-se praticamente num apartamento burguês em Paris, onde três jovens – dotados de saber – experienciam os sabores do corpo na mesma medida em que discutem cinema. È de facto aqui, neste último ponto, que encontro a riqueza do filme, algo que me marcou. Digamos que uma ideia de jogos amorosos através de uma visão pensada do mundo, uma visão sonhada (o sonho do Mundo só poderia estar relacionado com 60), um distanciamento do real, uma criação diferente, um universo distinto, sem contas para pagar ao fim do mês, hipermercados e a TVI. Graças a esse filme, a essa ideia, pude viver por instantes o jogo da adivinha cinematográfica com uma pessoa desejada; impulso que me fez provavelmente perder uma boa alma, mas provavelmente uma alma sem vida, sem vida para além das quatro paredes do estabelecido. Todavia, sonho, continuo, não consigo parar de ir contra as portas.
Esta película é inegavelmente um filme polémico, um regresso ao “crime” produzido em 70 e um dos símbolos da liberdade sexual – O último tango em Paris; sem o rubor e alvoroços deste Os sonhadores transmitem de novo uma mensagem de anti-trâmites, contudo, com uma luz ao fundo do túnel… este filme acaba por difundir uma ideia de positividade da vida, ao fim ao cabo trata de jovens. Tal como o fez no Último Tango o realizador italiano voltou a criar um ambiente claustrofóbico. A acção passa-se praticamente num apartamento burguês em Paris, onde três jovens – dotados de saber – experienciam os sabores do corpo na mesma medida em que discutem cinema. È de facto aqui, neste último ponto, que encontro a riqueza do filme, algo que me marcou. Digamos que uma ideia de jogos amorosos através de uma visão pensada do mundo, uma visão sonhada (o sonho do Mundo só poderia estar relacionado com 60), um distanciamento do real, uma criação diferente, um universo distinto, sem contas para pagar ao fim do mês, hipermercados e a TVI. Graças a esse filme, a essa ideia, pude viver por instantes o jogo da adivinha cinematográfica com uma pessoa desejada; impulso que me fez provavelmente perder uma boa alma, mas provavelmente uma alma sem vida, sem vida para além das quatro paredes do estabelecido. Todavia, sonho, continuo, não consigo parar de ir contra as portas.
Quarta-feira, Maio 11, 2005

Leslie Feist, é este o nome da senhora na fotografia. Esta canadiana de origem, que descobri na Rádio Marginal, lançou um cd muito interessante – Let it die. Contadora de histórias nata Feist é um regalo de sensualidade e intelecto, conjugação perfeita entre o saber e o ser (ver teledisco de One evening). Dia 25 de Julho virá fazer-nos uma visita no Fórum Lx … a não perder.
Segunda-feira, Maio 09, 2005
A busca do ser português
Com as três curtas metragens produzidas para a RTP 2[1], em finais de 70, João César Monteiro pretende atingir o âmago da portugalidade – sobretudo através de Os Dois Soldados e a Mãe, autênticos frescos do Portugal profundo. Ambos encruzam o mito e a intemporalidade; a cronologia passa a ser algo de irrisório nestas curtas. O Norte do nosso país parece envolto em uma redoma – estagnou. As gentes – agora às portas dos anos 80 – vivem ainda como se de medievos se tratassem; apesar de se notarem algumas óbvias alterações nas vestes, as superstições, as crenças, os medos e o raciocínio lógico, indicam um clara ancestralidade (com laivos flagrantes de medievalidade). João César Monteiro, acreditou piamente neste "paraíso perdido", para ele era esta a realidade profunda dos lusos, a verdadeira, merecedora de retracto.
Tal como os grandes artistas e pensadores da nossa nacionalidade[2] – obcecados por uma relação de amor-ódio à terra e as suas gentes - , Monteiro viveu sempre perseguido pela impertinência de pensar Portugal – toda a sua obra ronda em torno desta monomania; primeiro na origem, no mundo bucólico e mais tarde em Lisboa, inexoravelmente o coração de um país centralizado.
Ao terminar a sua vida e obra deixou-nos, através de João Vuvu, personagem de Vai Vem, o culminar da sua reflexão sobre o ser português: “ Não se nasce português, não se fica português… ser português é um atavismo”.
Tal como os grandes artistas e pensadores da nossa nacionalidade[2] – obcecados por uma relação de amor-ódio à terra e as suas gentes - , Monteiro viveu sempre perseguido pela impertinência de pensar Portugal – toda a sua obra ronda em torno desta monomania; primeiro na origem, no mundo bucólico e mais tarde em Lisboa, inexoravelmente o coração de um país centralizado.
Ao terminar a sua vida e obra deixou-nos, através de João Vuvu, personagem de Vai Vem, o culminar da sua reflexão sobre o ser português: “ Não se nasce português, não se fica português… ser português é um atavismo”.
[1] As Três Romãs, Os Dois Soldados e a Mãe para a série contos tradicionais portugueses.
[2] Não encontro outro país onde os seus escritores, pensadores e intelectuais sejam tão umbiguistas, simplesmente cingido o universo a este cantinho à beira mar plantado, sempre, sempre com a pergunta: porque nasci eu português? No pensamento. A eterna agonia de Camões e Pessoa cujo paralelo não encontro… talvez os russos?
Quarta-feira, Maio 04, 2005
Amor em tempo de guerra
Assistimos recentemente a uma nova vaga de interesse sobre a II Guerra Mundial: documentários, artigos, filmes, etc. Recrudescimento que surge, em parte, influenciado pela comemoração da libertação de Auschwitz numa data redonda (60 anos) e pelo conseguido filme sobre os 12 últimos dias de Hitler (Die Untergang), também 60 anos após a sua morte. Em estreita sintonia com este cenário encontra-se a obra que acabei de ler – Tempo para amar e tempo para morrer, de Erich Maria Remarque.
O livro retrata a história de um soldado alemão (Ernst Graeber) em plena Guerra Mundial, percurso que acaba por descrever todos os sintomas da Alemanha sob a égide do Nacional-socialismo. Remarque descreve as duas fases do conflito; o civil (que ao contrário do que se pensa não deixou a Alemanha impune) e o militar, onde o ambiente praticamente não variava – distintos na teoria mas idênticos na prática… a batalha era total, sentia-se, via-se, respirava-se e tomava-se-lhe o gosto em qualquer canto.
Graeber entrou no exército do Fuhrer no princípio da guerra, presenciou ao espantoso início germânico, a imparável Blitzkrieg; altura em que as tropas alemãs arrasaram o continente europeu num piscar de olhos. Em África sentiu os primeiros reveses, e em 1941 entrou no país dos sovietes, na grande ofensiva asiática – a Operação Barbarosa. Às portas de Moscovo entrou na fase dolorosa do conflito. Há certas coisas que não se notam em tempos gáudio – aspectos de somenos importância na França ou na Bélgica são agora notados. As derrotas na frente russa obrigam-no a pensar em questões que antes não se colocavam: fará sentido este Regime? Faz sentido uma guerra?
Perto do fim, e após 2 anos sem licença, Ernst têm direito a 3 semanas sem o tormento da peleja – assim pensava. Quando regressa à sua cidade natal verifica que está totalmente diferente – o lar, doce lar, onde pensava repousar, estava destroçado – parecia que estava todavia na frente de Leste; todos os dias havia bombardeamentos, corpos nas ruas, falta de salubridade. Enquanto buscava seus pais Graeber reencontra Elisabeth, uma antiga colega de escola, cujo pai se encontra num campo de concentração por motivos políticos. Encetam despreocupadamente uma ligação, ambos tentam esquecer a guerra e o Regime. Nesta passagem pela cidade vislumbramos várias figuras características da Alemanha dos anos 40: um intelectual controlado pelas SS, um judeu escondido, uma admiradora de Hitler que ocupa a residência de familiares de presos políticos, um oficial das SA, bonacheirão, que todos os dias organiza festas e esbanja alimentos e vários soldados, feridos (a maioria) e em licença cujo tempo é passado a jogar às cartas na caserna. Pairam, ainda nesta paisagem urbana, assuntos chave como a pureza da raça e a rigidez burocrática do nazismo.
Ernst e Elisabeth vivem momentos ternos, de uma ou outra luminosidade fugaz que surge dentro do negrume. Necessitam de se agarrar à vida, sentem um inexorável desejo de amar. Tentaram criar uma existência normal em tempo de guerra; casaram-se, iam ao restaurante, compravam roupa… esqueciam os escombros. Porém, e após a partida de Graeber, de novo para a frente, esses instantes de felicidade (situações do dia à dia de uma convivência sem os rigores da actividade bélica), terminaram gradualmente, a tal ponto que Ernst tinha dúvidas do que se passara, não teria sido tudo um sonho? Estava de novo na Rússia, de onde parece nunca ter saído e de onde nunca voltou.
O livro retrata a história de um soldado alemão (Ernst Graeber) em plena Guerra Mundial, percurso que acaba por descrever todos os sintomas da Alemanha sob a égide do Nacional-socialismo. Remarque descreve as duas fases do conflito; o civil (que ao contrário do que se pensa não deixou a Alemanha impune) e o militar, onde o ambiente praticamente não variava – distintos na teoria mas idênticos na prática… a batalha era total, sentia-se, via-se, respirava-se e tomava-se-lhe o gosto em qualquer canto.
Graeber entrou no exército do Fuhrer no princípio da guerra, presenciou ao espantoso início germânico, a imparável Blitzkrieg; altura em que as tropas alemãs arrasaram o continente europeu num piscar de olhos. Em África sentiu os primeiros reveses, e em 1941 entrou no país dos sovietes, na grande ofensiva asiática – a Operação Barbarosa. Às portas de Moscovo entrou na fase dolorosa do conflito. Há certas coisas que não se notam em tempos gáudio – aspectos de somenos importância na França ou na Bélgica são agora notados. As derrotas na frente russa obrigam-no a pensar em questões que antes não se colocavam: fará sentido este Regime? Faz sentido uma guerra?
Perto do fim, e após 2 anos sem licença, Ernst têm direito a 3 semanas sem o tormento da peleja – assim pensava. Quando regressa à sua cidade natal verifica que está totalmente diferente – o lar, doce lar, onde pensava repousar, estava destroçado – parecia que estava todavia na frente de Leste; todos os dias havia bombardeamentos, corpos nas ruas, falta de salubridade. Enquanto buscava seus pais Graeber reencontra Elisabeth, uma antiga colega de escola, cujo pai se encontra num campo de concentração por motivos políticos. Encetam despreocupadamente uma ligação, ambos tentam esquecer a guerra e o Regime. Nesta passagem pela cidade vislumbramos várias figuras características da Alemanha dos anos 40: um intelectual controlado pelas SS, um judeu escondido, uma admiradora de Hitler que ocupa a residência de familiares de presos políticos, um oficial das SA, bonacheirão, que todos os dias organiza festas e esbanja alimentos e vários soldados, feridos (a maioria) e em licença cujo tempo é passado a jogar às cartas na caserna. Pairam, ainda nesta paisagem urbana, assuntos chave como a pureza da raça e a rigidez burocrática do nazismo.
Ernst e Elisabeth vivem momentos ternos, de uma ou outra luminosidade fugaz que surge dentro do negrume. Necessitam de se agarrar à vida, sentem um inexorável desejo de amar. Tentaram criar uma existência normal em tempo de guerra; casaram-se, iam ao restaurante, compravam roupa… esqueciam os escombros. Porém, e após a partida de Graeber, de novo para a frente, esses instantes de felicidade (situações do dia à dia de uma convivência sem os rigores da actividade bélica), terminaram gradualmente, a tal ponto que Ernst tinha dúvidas do que se passara, não teria sido tudo um sonho? Estava de novo na Rússia, de onde parece nunca ter saído e de onde nunca voltou.
Segunda-feira, Maio 02, 2005
Ganz tolle
The Forest for the Trees foi o grande vencedor do Indie Lisboa, esta produção alemã, estreia de Maren Ade na realização, retrata a inerente vontade que cada um tem de agradar aos outros e ser amado; sentimento que, por vezes, se torna alimento, necessidade vital.
Melanie Pröschle, uma jovem professora que começa uma nova vida, uma fase “adulta”, com responsabilidades; parte da sua pequena cidade rural, para uma cidade urbana, onde, finalmente, vai começar a ensinar na escola secundária, para trás ficaram os pais os amigos e o ex-namorado – não conhecia ninguém na nova cidade (Karlruhe, a urbe natal da realizadora).
Melanie estava entusiasmada com a mudança para um novo local, deu-se a conhecer a todos os vizinhos, deu-lhes presentes de boas vindas, organizou uma festa de apresentação aos colegas da escola, com um bolo feito por ela; ao fim ao cabo seguiu todos os trâmites para que a vida corresse de feição. Ao fim de algum tempo, e após alguma frustração no trabalho, a jovem professora sentiu a necessidade de buscar uma amiga, alguém especial. Há um tempo para cá que observava a sua vizinha da frente (Tina); decidiu então entrar em contacto com ela, a pouco e pouco, e através de alguns acasos programados por Melanie, tornaram-se íntimas, a tal ponto que Tina – que na altura se encontrava sensível e com necessidade de novas distracções, motivada por uma relação que findara recentemente – lhe deu uma cópia da sua chave de casa. A vizinha passa a ser uma obsessão para Melanie que, por outro lado, vai perdendo o interesse em relação à escola; incapaz de dialogar com os colegas, mesmo com aqueles que demonstravam algum interesse pela sua pessoa, foi perdendo paulatinamente o controlo sob os seus alunos, cada vez mais desordeiros. A sua relação com Tina também acabou por se deteriorar – de alguma forma esta era uma amiga idealizada – sem o saber Melanie introduziu-se nos seus assuntos (até se oferecia para transportar o seu lixo, tinha de estar sempre presente), aparecia em festas onde a amiga estava, falava de histórias que esta lhe contava, a amigos de Tina presentes, seguia-a para toda a parte, queria provar-lhe que eram feitas uma para a outra. Inexoravelmente essa ânsia de demonstrar que era boa pessoa apenas serviu para um maior distanciamento por parte da amiga. A gota de água acabou por ser a conversa de Melanie com o ex-namorado de Tina, algo que esta considerou uma invasão de privacidade; proibiu-a de a procurar.
Sem Tina a vida era um oceano de solidão, tudo perdeu o sentido. Certo dia abandonou uma aula a meio, deixando os alunos perplexos, e dirigiu-se ao seu carro, colocou o lixo da amiga, há dias na bagagem do seu carro, totalmente apinhada e segui pela estrada; em um determinado momento, e tal como a jovem que virou as costas para os carros na Imortalidade de Kundera, imiscuiu-se do mundo. Lentamente tirou as mãos do volante, pós o motor automático e sentou-se no banco de trás… a paisagem era bela, por entre a copa das árvores vislumbrava-se o pôr-do-sol, o ser deixou de ser o ser, era uma pétala que voava leve e solta ao som do vento.
Melanie Pröschle, uma jovem professora que começa uma nova vida, uma fase “adulta”, com responsabilidades; parte da sua pequena cidade rural, para uma cidade urbana, onde, finalmente, vai começar a ensinar na escola secundária, para trás ficaram os pais os amigos e o ex-namorado – não conhecia ninguém na nova cidade (Karlruhe, a urbe natal da realizadora).
Melanie estava entusiasmada com a mudança para um novo local, deu-se a conhecer a todos os vizinhos, deu-lhes presentes de boas vindas, organizou uma festa de apresentação aos colegas da escola, com um bolo feito por ela; ao fim ao cabo seguiu todos os trâmites para que a vida corresse de feição. Ao fim de algum tempo, e após alguma frustração no trabalho, a jovem professora sentiu a necessidade de buscar uma amiga, alguém especial. Há um tempo para cá que observava a sua vizinha da frente (Tina); decidiu então entrar em contacto com ela, a pouco e pouco, e através de alguns acasos programados por Melanie, tornaram-se íntimas, a tal ponto que Tina – que na altura se encontrava sensível e com necessidade de novas distracções, motivada por uma relação que findara recentemente – lhe deu uma cópia da sua chave de casa. A vizinha passa a ser uma obsessão para Melanie que, por outro lado, vai perdendo o interesse em relação à escola; incapaz de dialogar com os colegas, mesmo com aqueles que demonstravam algum interesse pela sua pessoa, foi perdendo paulatinamente o controlo sob os seus alunos, cada vez mais desordeiros. A sua relação com Tina também acabou por se deteriorar – de alguma forma esta era uma amiga idealizada – sem o saber Melanie introduziu-se nos seus assuntos (até se oferecia para transportar o seu lixo, tinha de estar sempre presente), aparecia em festas onde a amiga estava, falava de histórias que esta lhe contava, a amigos de Tina presentes, seguia-a para toda a parte, queria provar-lhe que eram feitas uma para a outra. Inexoravelmente essa ânsia de demonstrar que era boa pessoa apenas serviu para um maior distanciamento por parte da amiga. A gota de água acabou por ser a conversa de Melanie com o ex-namorado de Tina, algo que esta considerou uma invasão de privacidade; proibiu-a de a procurar.
Sem Tina a vida era um oceano de solidão, tudo perdeu o sentido. Certo dia abandonou uma aula a meio, deixando os alunos perplexos, e dirigiu-se ao seu carro, colocou o lixo da amiga, há dias na bagagem do seu carro, totalmente apinhada e segui pela estrada; em um determinado momento, e tal como a jovem que virou as costas para os carros na Imortalidade de Kundera, imiscuiu-se do mundo. Lentamente tirou as mãos do volante, pós o motor automático e sentou-se no banco de trás… a paisagem era bela, por entre a copa das árvores vislumbrava-se o pôr-do-sol, o ser deixou de ser o ser, era uma pétala que voava leve e solta ao som do vento.

