Viver pelo momento?
O sangue dos outros, provavelmente a incursão mais conseguida de Simone Beauvoir – ensaísta por natureza – na literatura é um livro difícil e, a meu ver, bastante intimista. Apesar de envolto num cenário de ante e durante a II Guerra Mundial o livro retrata, no seu âmago, as inter-relações e divagações da burguesia francesa mais tardia (o meio de Simone): a sua visão da política, o encarar do indivíduo e o esmiuçar das relações humanas – em parte a autora incluiu nesta obra as preocupações da sua juventude; a pouco e pouco, e com outras personagens, vai descortinando o seu mundo, a sua realidade enquanto jovem – uma jovem abastada –, estudante e mais tarde professora de filosofia. Percorre-se assim todo o pensamento e costumes da sua geração, o começo na esquerda comunista (imbuída numa paixão pela pureza do operariado), a paulatina descrença nessa utopia, noções de paz, intervenção, individualismo ou colectivismo e o amor. O amor é provavelmente o ponto mais explorado, encontramos, através da personagem de Jean, uma mitificação de um homem admirável, de delicada descrição, podendo mesmo ser considerado um apaixonado como, ao mesmo tempo, um insensível. Atravessamos assim um quadro de uma relação complexa, difícil de digerir, talvez incompreensível para o leitor e que culmina com a morte; presumivelmente uma personificação do relacionamento de Simone com Jean-Paul Sartre, ao fim ao cabo uma relação que durou toda a vida… toda ela em que ambos se dedicaram ao existencialismo, grosso modo, o fio condutor deste livro.
