Quarta-feira, Setembro 28, 2005

A história continua


O primeiro trabalho que fiz para a faculdade tratava-se de uma recensão crítica. Dos quatro livros propostos pelo, infortunadamente falecido, professor Luís Krus, optei por escolher a História Continua de Georges Duby – já nem sei ao certo quais eram os títulos dos restantes livros.
Provavelmente não tirei grande partido da obra de Duby para a cadeira de Teoria das fontes, não obstante, este livro marca-me constantemente na organização da minha cadeira de estudante – agora com um novo fôlego em Espanha. Este livro é essencialmente uma biografia académica do autor – desde o início da sua investigação para a tese até praticamente ao fim da sua carreira – mas também un regard, daquele que foi provavelmente o maior historiar do seu tempo, sobre o ensino da história no passado, no presente e no futuro. Tomamos conhecimento do meio universitário, recebemos dicas em como organizar uma investigação, verificamos a evolução e surgimento de novas correntes e deslumbramo-nos na forma como este historiador é capaz de fazer a ponte a ponte entre a História leccionada na universidade e a de divulgação (nomeadamente através da televisão), que como sabemos, muitas vezes, parecem tratar-se de disciplinas diferentes.
Duby é um homem genial e um professor brilhante, que, ao contrário de muitos, tem a capacidade de passar os seus ensinamentos de forma simples e com uma narrativa cativante, despertando, desta forma, esse gosto – hoje em dia tão difícil de conseguir – pela leitura.

Sábado, Setembro 24, 2005

Um Ganges que corre pela Europa


Volto novamente a falar de um livro que se apresenta como uma compilação de textos. Oriente, ocidente de Salman Rushdie surge, nos tempos que correm, como uma obra capaz de fazer uma ponte entre estes dois Mundos, aliás não fora também o autor um filho destes dois (Rushdie, nasceu em Bombaim no seio de uma família de origem indiana muçulmana, que mais tarde, e após uma curta estadia em Inglaterra romaria ao Paquistão, Salman por sua vez permaneceu desde a adolescência nas terras de sua majestade, onde fez todo o seu ensino). Todos estes textos, uns mais vocacionados para o oriente, outros para o ocidente e outros ainda que conjugam os dois, são retratados com extremo aconchego e cuidado, existindo sempre a preocupação de manter as diferenças entre as duas esferas que sempre, mas sempre, acabam por se tocar.

Viagens


A obra póstuma de Bruce Chatwin - O que faço eu aqui - é um fresco extraordinário da humanidade e da relação desta com o Mundo. Ao longo das suas variadas histórias – ao fim ao cabo, experiências suas – o autor revela-nos o nosso planeta e as suas gentes. Bruce é um viajante e um ouvinte assíduo, percorreu quase todos os recantos e conviveu com as mais variadas gentes. Conheceu pessoas famosas, pessoas maravilhosas e outras nem tanto; pouco importa, porque este livro trata de variedade, todos têm o seu lugar dentro dele, este livro é a sua busca existencial a justificação do seu ser – o que faço eu aqui.
No decurso da obra vamos desmistificando alguns mitos e vamos também entrar em algumas duras realidades, por exemplo ficamos a saber que na Rússia soviética proliferava um enorme negócio de colecção de arte, e que existiam casas ricamente decoradas, à revelia do governo - mesmo no período Estalinista. Tomámos também conhecimento – se bem que, para os mais atentos isto já estava claro - das sangrentas guerras civis em África, onde o canibalismo ainda é uma dura realidade.
Chatwin é também uma pessoa sensível e sabedora. Sempre atento nas suas viagens, ilustra o leitor com a história do local, as personalidades a quem o local está intimamente ligado, o que o recordam.
É, no meu ponto de vista, um livro revigorante... pena que o escritor nos tenha deixado tão cedo.

Segunda-feira, Setembro 12, 2005

Aleluia, aleluia...


Assisti, recentemente, na RTP 2 a um filme sobre o qual tinha fracas expectativas; trata-se de Dogville de Lars von Trier. Confesso que, logo ao início, ao ver os cenários – todo o filme é passado num estúdio e os componentes cénicos são muito diminutos – pensei que se confirmavam as minhas expectativas de um filme kitsch, porém, e como sou até bastante tolerante perante este tipo de devaneios artísticos (algo que aprendi a ver João César Monteiro), pude efectivamente ver que, afinal, este tipo de cenário, ao jeito teatral tem uma função de ser, isto é, abarcar a totalidade dos acontecimentos, visto que, basicamente, a história centra-se na pequena aldeia de Dogville, onde todos os acontecimentos estão relacionados e dependem uns dos outros. Lars von Trier criou assim num estúdio na Suécia uma acção contínua, observada pelo espectador através de um excelente domínio da técnica (uma visão de câmara panorâmica coadjuvada por um belíssimo domínio dos sons e da iluminação).
A ausência de grandes planos de paisagem e encenação elaborada tornam, a meu ver, o ambiente mais fechado, ao fim ao cabo, este é um dos grandes objectivos do realizador, acentuar ainda mais o ambiente de clausura de uma aldeia de interior, onde tudo se sabe e tudo se vê… literalmente. A história é profunda e dramática, quase que a antítese do bom selvagem, quedamos com a ideia de que o ser humano é mau por natureza, e basta uma leve brisa para iniciar a derrocada das peças de dominó e culminar no apocalipse da humanidade. Sendo ou não intencional, von Trier lança uma sentença de morte aos meios rurais, bondosos de início, quase que idílicos, mas que, com o decurso do tempo, se demonstram adversos, e encerrados para com a entrada de estranhos, basta um toque de pavor para se desencadear o mecanismo de defesa e, em breves instantes, toda a comunidade recolhe para dentro da carapaça. Um filme avassalador

Sexta-feira, Setembro 09, 2005

O lobo do betão

É todavia com alguma dificuldade que aceito a literatura contemporânea, permaneço ainda intimamente apegado aos clássicos de finais de XIX inícios de XX, altura em que os grandes vultos jorravam no seio da Europa: França, Alemanha, Inglaterra e da Rússia europeizada (Sampetersburgo a fonte de inspiração de Tolstoi e Dostoiévski). Porém, ultimamente tenho demonstrado alguma abertura para com os novos escritores, que curiosamente provém das periferias culturais: da América latina, Gabriel Garcia Marquez, Jodorowski; da Índia, Salman Rushdie; dos EUA (é engraçado considera-lo uma periferia, mas de facto em termos históricos apresenta-se como tal), Paul Auster; da recém criada República Checa, Milan Kundera. Em parte, excepção feita a Kundera, todos me agradam bastante, tanto do ponto de vista da escrita em si, como técnica e como meio de narração e passagem da imaginação.
De há uns tempos para cá tenho-me centrado com maior cuidado em Paul Auster. Este escritor judeu norte-americano apresenta nas suas obras um relato muito cinematográfico, aliás no decurso dos seus textos são imensas as referências a séries televisivas do seu passado; digamos que são pormenores que me colocam a mente no futuro, porque, ao fim ao cabo, muitas das nossa referências hoje em dia provêm da televisão, e o tempo e a linguagem na televisão são diferentes na escrita. Auster a meu ver faz essa ponte, e sinto muitas vezes quando leio um livro da sua autoria que estou a ver um filme, pelo contrário quando leio Hesse ou Tolstoi sinto que estou no local, ao vivo a presenciar. Auster, é inegável, escreve sobre temas profundos, actuais e com um cariz moralizador o que me agrada – não se coloca no papel de Deus criador como Kundera.
Timbuktu é um excelente exemplo de um bom livro contemporâneo, simples, breve, e que de facto entra no cerne da nossa sociedade através da visão de um cão… mas hoje quem é que não sente um cão neste mundo. Tudo bem, que retracta fundamentalmente a sociedade norte-americana, mas nos tempos que decorrem, em pouco variamos no Ocidente, nomeadamente nos meios urbanos, desta sociedade. Mr Bones, o pobre rafeiro a quem Auster decidiu colocar “uma câmara,” atravessa atenciosamente este mundo dos humanos, compreende, ou aprende a compreender, os seus modos, afectividades, mentiras, descrenças, agressividades – é um cão inteligente, consciente da sua essência de doméstico, aprende a apegar-se aos homens pois eles são a sua subsistência, sabe também evitar os restaurantes chineses, os homens do canil e afastar-se de um grupo de crianças (sempre perigosas aquando juntas). Mr Bones aprende, ainda através do seu primeiro dono (um sobrevivente da intempérie que assolou os anos 60), e no final de contas, o único, aquele que esteve sempre presente, mesmo após a morte, a ter um olhar crítico sobre a sociedade actual, aprendeu assim o que era o capitalismo, o socialismo e a anarquia… isto é, o pobre lobo moderno não é nada mais nada menos que um de nós, um ser como outro neste século sem ponta por onde se lhe pegue. O lobo das estepes tornou-se no lobo do betão.

Sábado, Setembro 03, 2005

Educar para resistir



O cinema alemão volta a apresentar um filme de crítica social e novamente com um dissimulado carácter político. Depois de Goodbye Lenine de Wolfgang Becker é a vez de Hans Weingartner dar ao prelo um filme incisivo e actual. Os Edukadores exprimem a angústia da minha geração, uma juventude sem crenças… sem esquerda, ou bem melhor, sem capacidade para exprimir a liberdade e novos ideais. Novamente o triângulo amoroso – agora muito em voga – voltou a ser uma força motriz do filme tal como nos Sonhadores e Jules e Jim (o pai adoptivo deste último). Em todos estes filmes o trio actua como uma forma enriquecedora, digamos que uma passagem de mentalidades que se cruzam e interligam no centro – a mulher (em todos eles o triângulo é formado por dois homens e uma mulher). Porém, e ao contrário dos seus precedentes, este filme – que perdeu a Palma de Ouro 2004 para o documentário de Michael Moore[1] – é vocacionado para o exterior, ou seja, enquanto que os outros dois se baseiam sobretudo num universo de discussão introspectivo, os Edukadores tentam transmitir esse debate para o extrínseco, para o mundo… um movimento que pretende tocar o mundo; ora, no caso de Jules e Jim e dos Sonhadores vislumbramos uma inoperância em relação à passagem da mensagem para o orbe – estes filmes são nichos de debate a três.
“Os vossos dias de abundância estão contados” é esta a mensagem que passa, é a «partida» criada pelo grupo – três jovens aborrecido pela letargia capitalista de quatro horas de televisão diária –, para intimidar as gentes que dominam ou compactuam com o sistema, ao fim ao cabo educa-los, provar que estão errados. Ao modificarem a disposição das mobílias, sem qualquer tipo de roubo incutem o ridículo e intranquilidade nas suas vidas burguesas.
O ponto-chave do filme ocorre aquando do rapto involuntário, fruto de um capricho de amor, de um desses “criminosos” burgueses. O grupo depara-se assim com discussões acerca da verdadeira validade do seu acto e da continuidade dos Edukadores. A vítima fora também ela, enquanto jovem, um revolucionário, um dos activistas do 68 alemão. Debate-se, por entre um ambiente bucólico de montanha (um bálsamo fotográfico), o motivo que leva um revolucionário a tornar-se num capitalista, será esse o destino futuro do trio? Primeiro surge o casamento, depois, os filhos, depois as despesas para a educação destes e por fim, quando se pára para reflectir já todos estamos dentro do sistema. Não obstante, “há gente que nunca muda” e é possível continuar, ser-se um espírito revolucionário depois dos trinta.

[1] Inexplicável, uma ofensa ao cinema, se se tratava de criticar a sociedade capitalista creio que a película alemã e muito mais adequada, aliás o título usado por Michael Moore deve fazer Truffaut revirar na tumba.