É todavia com alguma dificuldade que aceito a literatura contemporânea, permaneço ainda intimamente apegado aos clássicos de finais de XIX inícios de XX, altura em que os grandes vultos jorravam no seio da Europa: França, Alemanha, Inglaterra e da Rússia europeizada (Sampetersburgo a fonte de inspiração de Tolstoi e Dostoiévski). Porém, ultimamente tenho demonstrado alguma abertura para com os novos escritores, que curiosamente provém das periferias culturais: da América latina, Gabriel Garcia Marquez, Jodorowski; da Índia, Salman Rushdie; dos EUA (é engraçado considera-lo uma periferia, mas de facto em termos históricos apresenta-se como tal), Paul Auster; da recém criada República Checa, Milan Kundera. Em parte, excepção feita a Kundera, todos me agradam bastante, tanto do ponto de vista da escrita em si, como técnica e como meio de narração e passagem da imaginação.
De há uns tempos para cá tenho-me centrado com maior cuidado em Paul Auster. Este escritor judeu norte-americano apresenta nas suas obras um relato muito cinematográfico, aliás no decurso dos seus textos são imensas as referências a séries televisivas do seu passado; digamos que são pormenores que me colocam a mente no futuro, porque, ao fim ao cabo, muitas das nossa referências hoje em dia provêm da televisão, e o tempo e a linguagem na televisão são diferentes na escrita. Auster a meu ver faz essa ponte, e sinto muitas vezes quando leio um livro da sua autoria que estou a ver um filme, pelo contrário quando leio Hesse ou Tolstoi sinto que estou no local, ao vivo a presenciar. Auster, é inegável, escreve sobre temas profundos, actuais e com um cariz moralizador o que me agrada – não se coloca no papel de Deus criador como Kundera.
Timbuktu é um excelente exemplo de um bom livro contemporâneo, simples, breve, e que de facto entra no cerne da nossa sociedade através da visão de um cão… mas hoje quem é que não sente um cão neste mundo. Tudo bem, que retracta fundamentalmente a sociedade norte-americana, mas nos tempos que decorrem, em pouco variamos no Ocidente, nomeadamente nos meios urbanos, desta sociedade. Mr Bones, o pobre rafeiro a quem Auster decidiu colocar “uma câmara,” atravessa atenciosamente este mundo dos humanos, compreende, ou aprende a compreender, os seus modos, afectividades, mentiras, descrenças, agressividades – é um cão inteligente, consciente da sua essência de doméstico, aprende a apegar-se aos homens pois eles são a sua subsistência, sabe também evitar os restaurantes chineses, os homens do canil e afastar-se de um grupo de crianças (sempre perigosas aquando juntas). Mr Bones aprende, ainda através do seu primeiro dono (um sobrevivente da intempérie que assolou os anos 60), e no final de contas, o único, aquele que esteve sempre presente, mesmo após a morte, a ter um olhar crítico sobre a sociedade actual, aprendeu assim o que era o capitalismo, o socialismo e a anarquia… isto é, o pobre lobo moderno não é nada mais nada menos que um de nós, um ser como outro neste século sem ponta por onde se lhe pegue. O lobo das estepes tornou-se no lobo do betão.