A Leste do paraíso foi o local para onde Deus enviou Caim após este ter morto o seu irmão Abel. Foi também esse o título do romance de John Steinbeck lançado em 1952 - fazendo uma clara analogia com o respectivo episódio bíblico - passado para o cinema pelo brilhante Elia Kazan três anos mais tarde
[1]. A película, do realizador nascido em Istambul, retrata a América da primeira década do século passado. Um país que se preparava para entrar no primeiro grande conflito militar ao lado da
Entente e, de facto, essa parte é bem conseguida, revelando uma América que se vai “aculturando”
[2]: a situação do alemão Gustav é um bom indicador do vivido na época. Contudo, este não é o tema essencial do filme, digamos que é apenas o enquadramento. A história segue toda ela em torno de uma família e da condicionalidade da moral. Parece que voltamos a reabrir os irmãos Karámazov, dá-mos um mergulho na profundidade do ser, ou seja, novamente a relativização do bem e do mal perante a imposição moral, e sobretudo a inevitabilidade do papel atávico da família, o incontornável poder do sangue familiar na formação inexorável do ser.
Adam (Raymond Massey) resolve voltar à sua fazenda após mais de uma década de ausência, com ele traz os seus dois filhos Caleb (James Dean) e Aron (Richard Davalos). Adam é um pai preocupado, educou sozinho os seus filhos, deu-lhes dois nomes bíblicos e uma boa educação protestante, educação que implicava e leitura frequente do livro sagrado. Caleb surge como o filho mal amado, que atravessa uma crise de adolescência, no fulgor de todas as questões existências. A constante repreensão do pai, sempre com o dedo indicador a apontar para a bíblia, levam o jovem a interrogar-se: será que sou mesmo mau? Porque não ajo da mesma forma que meu pai e meu irmão? O facto de se diferente (de não ser amado da mesma forma que o irmão) leva-o a divagar pela cidade próxima do seu rancho, onde frequenta locais impróprios aos olhos de seu pai e irmão. Através desses locais e da conversa de um bêbado descobre que a sua mãe – que tanto ele como o irmão crêem morta – se encontra viva e era dona de uma bar de alterne e de jogo; o maior da região. Caleb encontrou assim uma justificação para o facto de ele ser mau, era-o porque a sua mãe também o era.
Caleb fazia tudo para agradar ao pai, era um jovem inteligente, cheio de vida e irreverente
[3], sempre a arranjar estratagemas ou negócios, porém, acabava sempre por falhar aos olhos do pai por não seguir a moralidade exigida. Certo dia em conversa com a mãe (mantinha em segredo que a tinha descoberto) perguntou-lhe porque motivo os deixou, esta disse que o marido a asfixiava com a sua bondade e moral, sempre com citações bíblicas e o perdão pelos pecados cometidos, isto é o mesmo motivo que também o consumia.
A quase falência do pai no negócio das alfaces surgiu como hipótese de Caleb se mostrar. Com dinheiro da mãe investiu no negócio dos feijões, em alta após a entrada dos EUA na guerra. Preparou tudo para que no dia dos anos do pai lhe pudesse dar de presente a mesma quantia que este perdera no passado, com ajuda de Abra (namorada do irmão9 enfeitou a casa e entregou com orgulho o dinheiro ao pai, este, ao contrário do esperado, ficou desiludido – o filho tinha-se aproveitado de uma situação de guerra, de sofrimento para muita gente, para obter lucro; em compensação rejubilou de alegria com a prenda de Aron – que anunciou o seu casamento com Abra. Revoltado Caleb levou o irmão a ver a mãe iniciando assim a Catarse do filme.
No fim Elia Kazan acaba por privilegiar a dor de Caleb que, ao fim ao cabo, foi uma maior preparação para a vida. Tanto Aron como o seu pai, foram incapazes de resistir ao choque com a realidade. Aron quando descobriu que a sua mãe (o tal anjo que supunha estar no céu), era terrena, e bem terrena, enlouqueceu e partiu num comboio para o compressor de homens que era o
Somme. O seu pai ao ver a partida do filho querido, o filho bom, teve uma trombose. Caleb acaba por ficar com Abra (que no final passa a ser uma personagem fundamental, gestora dos conflitos) e a cuidar do pai que lhe pede, com a dificuldade do seu estado de paralisação, que despeça a enfermeira e fique e ele a trata-lo… é a redenção.
[1] Numa altura em que o cinema italiano parecia preparar-se para assumir a dianteira com filmes como:
la Dolce Vitta e
l' Avventura
[2] Os Estados Unidos da América, o país sem língua própria, o país cuja constituição não identifica nenhuma língua como (sua) oficial, torna-se a América do inglês, a América das bandeiras à porta de casa (que ainda hoje vemos no Midwest e no Ohio). Pela primeira vez os emigrantes viram-se obrigados a olvidar a sua língua e culturas maternas e a tornarem-se americanos de gema. Assim sucedeu com a emigração alemã e de Leste na costa Este e com irlandeses e italianos na Oeste.
[3] O mito de James Dean nasce sobretudo com este filme, aliás morreu no ano em que este estreou. De facto, e a partir desta data, começa a ter-se mais em conta o papel da adolescência e da juventude – entrou de moda. Não é por acaso que durante a década seguinte se deu o domínio a juventude, foi o surgimento da idolatria do rock e os movimentos que daí despertaram.