Sábado, Outubro 22, 2005

Filho de peixe sabe nadar



Hoje irei escrever um breve texto de homenagem à família Buckley (Tim e Jeff). Dois músicos, pai e filho, cujo legado, embora breve, ficará para sempre, devido ao teor e profundidade das suas letras e da deslumbrante voz. Acima de tudo foram duas pessoas que se entregaram de alma e coração à vida. Ambos eram detentores de uma sensibilidade fora do comum, factor que os levava a períodos de êxtase e depressão repentinos - talvez por isso nos tenham deixado tão cedo -, incapazes de suportar os seus próprios estados de espírito... apressaram o seu fim - Tim morreu aos 28 anos como uma overdose, Jeff aos 30 por afogamento, a última vez que foi visto com vida, estava a nadar de costas e a cantar ao luar.

Na minha opinião, Jeff superou o pai - que apenas conhecia das fotografias e dos discos -, até na vida, ganhando mais dois anos, tanto a nível das letras e das melodias, mas sobretudo pela voz... pura e tremenda.
Deixo-vou com um pedaço de uma das músicas de Jeff Buckley que mais aprecio:


"Lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in
Burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
My body turns and yearns for a sleep that will never come
It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles when i slept so soft against her
It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever
Well maybe i'm just too young To keep good love from going wrong
Oh... lover, you should've come over'Cause it's not too late
Well I feel too young to hold on
And i'm much too old to break free and run
Too deaf, dumb, and blind to see the damage i've done
Sweet lover, you should've come over
Oh, love well i'm waiting for youLover, you should've come over'Cause it's not too late"

Jeff Buckley Grace (1994)Lover, You Should've Come Over

Domingo, Outubro 16, 2005

De volta a Berna (à Avenida)


Ao visitar o Museu do Prado não poderia deixar de me olvidar do meu colega de curso A. Costa, de facto, o local é um hino à cultura Moderna, e é-o agora ainda mais acentuado pela introdução, na secção temporária, da exposição sobre o Rei Planeta (Filipe IV de Espanha, III de Portugal). Aqui sim quedaria bem a frase que a nossa professora de História Moderna proferia com frequência: “... um fresco sobre a Modernidade”, quando falava da obra de Braudel O mediterrâneo e o mundo mediterrâneo no tempo de Filipe II. No Prado temos mesmo esses frescos, essas imagens do apogeu espanhol que, ao fim ao cabo, coincidiu com grande parte da Modernidade; desta forma encontramos um museu repleto de todos os grandes artistas desse tempo, a maior parte deles sediados ou a trabalhar para o reino de Espanha: Goya, Bosh, el Greco, van Dyck, entre outros. Vislumbramos através desses quadros as paisagens, os rostos e as vestes daquele tempo, tanto na Península Ibérica, como na Flandres, Sul de Itália e no Novo Mundo... todo o universo da Hispânia.
Ao caminhar por aquelas salas repletas de turistas estrangeiros (também eu era um estrangeiro. Às vezes parece que ainda não digeri bem a noção de que estou num país que não é o meu), pude recordar essas aulas do meu terceiro ano de faculdade, voltar a ler Jean Delumeau, recordar Olivares, Lepanto, a ascensão neerlandesa, e a queda portuguesa, a Reforma e a Contra Reforma, a guerra dos trinta anos e Erasmo de Roterdão que era de Roterdão (como dizia a estimada professora), Erasmo que é curiosamente o nome da residência onde vivo em Cantoblanco, Universidade Autónoma de Madrid.

Sábado, Outubro 15, 2005

From Madrid with love



Acompanho Woody Allen há já algum tempo, porém, nunca me disponibilizei a escrever algo sobre esta personagem – convém referir que apenas conheço a sua obra cinematográfica – e agora que o faço irei faze-lo em conjunto com Diane Keaton, isto porque, tenciono apenas centrar-me nos filmes em que contracenaram juntos, não em todos, mas sobretudo, nos mais conhecidos e reconhecidos, ou seja: Love and Death (uma versão muito característica de Allen do romance de Tolstoi Guerra e Paz), Annie Hall e Manhatan. Em todos eles o tema comum é o amor, ou, direi melhor, o "desamor". Embora o tom cómico seja mote assente, todos os filmes apresentam uma forma de abordagem difícil e complexa, excepção feita a Love and Death, observamos um retrato da sociedade intelectual norte americana - nomeadamente a nova iorquina - e da forma como os relacionamentos são encarados. Atrevo-me mesmo a dizer que está se trata da própria busca de Allen para se compreender a si mesmo (digamos que envereda por uma nova visita ao psicanalista – algo que faz frequentemente na vida real – desta forma através do cinema). Vislumbramos desta forma relacionamentos instáveis, sem nenhum dos componentes tipo dos clássicos romances de Hollywood, aqui predominam os pormenores: um gesto que agrada, uma palavra, uma careta, uma peça de roupa, um objecto de adorno, etc, são factores que podem pender numa relação, sobretudo quando associados com momentos de asfixia conjugal.
Diane Keaton e Woody Allen, outrora parceiros sentimentais, conseguiram transparecer essa empatia para a vida profissional, o que torna, de facto, estes filmes extraordinários, uma fluência na representação, onde as expressões e o texto parece que saem logo à primeira take. Ambos desvendaram um novo universo, o complexo mundo da vida a dois, os factores da ilusão, decepção, loucura, comiseração e aceitação. Quanto a mim toda esta percepção surge em Annie Hall, a película de maior sucesso realizado por Allen; conseguiu ser um dos grandes vencedores dos Óscares de 1977, suplantando o grande "papão" da década – Star Wars – como melhor filme, Diane conseguiu também arrecadar o prémio para melhor actriz, factor bastante considerável, tendo em conta a dificuldade deste tipo de filmes (complexos) triunfarem perante a Academia. Foi um comentário breve, como os filmes de Woody Allen; quando chegam ao fim tudo parece tão curto, a vida e as vivências sempre encaradas por uma visão passada feliz que agora acaba, e um passado feliz, quando visto do presente, do nosso presente, parece sempre curto... quere-mos voltar a vive-lo, não cometer os mesmos erros para que, depois, não sejamos relegados para a letargia presente.

Segunda-feira, Outubro 10, 2005

Uma maravilha num país sem maravilhas


Alice é, de facto, uma revelação no cinema português actual, revelação essa que é ainda mais acentuada por se tratar da primeira incursão em longas-metragens do jovem realizador Marco Martins[1]. O jogo de câmara é muito bom, e o cenário pardacento de Lisboa – factor pouco explorado na filmagem da capital, que surge quase sempre resplandecente, mesmo durante a noite – factor que quase a torna numa cidade nórdica, obscura e chuvosa, uma Londres do século XIX, onde todos os crimes ocorriam, é extremamente adequado pois segue o ritmo da narrativa que é essencialmente triste e obscura. A história de uma pai que busca (procura feita em grande parte através do uso das filmagens… da observação da realidade, que é em parte o que faz um cineasta) desesperadamente pela sua filha desaparecida[2] mas que, ao mesmo tempo, continua a sua vida e tenta manter as rotinas para não entrar no desespero.
Marco Martins filmou também o dia a dia habitual das gentes que, actualmente vivem fora de Lisboa em cidades dormitório, percorrendo de madrugada longas filas de trânsito, andando numa correria constante em comboios e metros repletos de gente. Deve-se também felicitar o realizador pela escolha dos actores – com bons profissionais o trabalho tem sempre frutos. Saliento sobretudo Miguel Guilherme e Beatriz Batarda e a surpresa Nuno Lopes.
Alice é uma lufada de ar fresco no universo do cinema português que, a meu ver, após a morte de João César Monteiro ficou muito seco e estagnado.

[1] Não é por acaso que ganha o prémio régards jeunes em Cannes.
[2] Aqui também um factor interessante, normalmente costuma-mos ver com maior intensidade a preocupação materna. Aliás o realizador está a par disso e deixa uma achega numa das cenas, onde uma senhora diz ao pai «uma mãe sofre sempre mais».

Segunda-feira, Outubro 03, 2005

A Leste do paraíso (onde está o paraíso?)


A Leste do paraíso foi o local para onde Deus enviou Caim após este ter morto o seu irmão Abel. Foi também esse o título do romance de John Steinbeck lançado em 1952 - fazendo uma clara analogia com o respectivo episódio bíblico - passado para o cinema pelo brilhante Elia Kazan três anos mais tarde[1]. A película, do realizador nascido em Istambul, retrata a América da primeira década do século passado. Um país que se preparava para entrar no primeiro grande conflito militar ao lado da Entente e, de facto, essa parte é bem conseguida, revelando uma América que se vai “aculturando”[2]: a situação do alemão Gustav é um bom indicador do vivido na época. Contudo, este não é o tema essencial do filme, digamos que é apenas o enquadramento. A história segue toda ela em torno de uma família e da condicionalidade da moral. Parece que voltamos a reabrir os irmãos Karámazov, dá-mos um mergulho na profundidade do ser, ou seja, novamente a relativização do bem e do mal perante a imposição moral, e sobretudo a inevitabilidade do papel atávico da família, o incontornável poder do sangue familiar na formação inexorável do ser.
Adam (Raymond Massey) resolve voltar à sua fazenda após mais de uma década de ausência, com ele traz os seus dois filhos Caleb (James Dean) e Aron (Richard Davalos). Adam é um pai preocupado, educou sozinho os seus filhos, deu-lhes dois nomes bíblicos e uma boa educação protestante, educação que implicava e leitura frequente do livro sagrado. Caleb surge como o filho mal amado, que atravessa uma crise de adolescência, no fulgor de todas as questões existências. A constante repreensão do pai, sempre com o dedo indicador a apontar para a bíblia, levam o jovem a interrogar-se: será que sou mesmo mau? Porque não ajo da mesma forma que meu pai e meu irmão? O facto de se diferente (de não ser amado da mesma forma que o irmão) leva-o a divagar pela cidade próxima do seu rancho, onde frequenta locais impróprios aos olhos de seu pai e irmão. Através desses locais e da conversa de um bêbado descobre que a sua mãe – que tanto ele como o irmão crêem morta – se encontra viva e era dona de uma bar de alterne e de jogo; o maior da região. Caleb encontrou assim uma justificação para o facto de ele ser mau, era-o porque a sua mãe também o era.
Caleb fazia tudo para agradar ao pai, era um jovem inteligente, cheio de vida e irreverente[3], sempre a arranjar estratagemas ou negócios, porém, acabava sempre por falhar aos olhos do pai por não seguir a moralidade exigida. Certo dia em conversa com a mãe (mantinha em segredo que a tinha descoberto) perguntou-lhe porque motivo os deixou, esta disse que o marido a asfixiava com a sua bondade e moral, sempre com citações bíblicas e o perdão pelos pecados cometidos, isto é o mesmo motivo que também o consumia.
A quase falência do pai no negócio das alfaces surgiu como hipótese de Caleb se mostrar. Com dinheiro da mãe investiu no negócio dos feijões, em alta após a entrada dos EUA na guerra. Preparou tudo para que no dia dos anos do pai lhe pudesse dar de presente a mesma quantia que este perdera no passado, com ajuda de Abra (namorada do irmão9 enfeitou a casa e entregou com orgulho o dinheiro ao pai, este, ao contrário do esperado, ficou desiludido – o filho tinha-se aproveitado de uma situação de guerra, de sofrimento para muita gente, para obter lucro; em compensação rejubilou de alegria com a prenda de Aron – que anunciou o seu casamento com Abra. Revoltado Caleb levou o irmão a ver a mãe iniciando assim a Catarse do filme.
No fim Elia Kazan acaba por privilegiar a dor de Caleb que, ao fim ao cabo, foi uma maior preparação para a vida. Tanto Aron como o seu pai, foram incapazes de resistir ao choque com a realidade. Aron quando descobriu que a sua mãe (o tal anjo que supunha estar no céu), era terrena, e bem terrena, enlouqueceu e partiu num comboio para o compressor de homens que era o Somme. O seu pai ao ver a partida do filho querido, o filho bom, teve uma trombose. Caleb acaba por ficar com Abra (que no final passa a ser uma personagem fundamental, gestora dos conflitos) e a cuidar do pai que lhe pede, com a dificuldade do seu estado de paralisação, que despeça a enfermeira e fique e ele a trata-lo… é a redenção.


[1] Numa altura em que o cinema italiano parecia preparar-se para assumir a dianteira com filmes como: la Dolce Vitta e l' Avventura
[2] Os Estados Unidos da América, o país sem língua própria, o país cuja constituição não identifica nenhuma língua como (sua) oficial, torna-se a América do inglês, a América das bandeiras à porta de casa (que ainda hoje vemos no Midwest e no Ohio). Pela primeira vez os emigrantes viram-se obrigados a olvidar a sua língua e culturas maternas e a tornarem-se americanos de gema. Assim sucedeu com a emigração alemã e de Leste na costa Este e com irlandeses e italianos na Oeste.
[3] O mito de James Dean nasce sobretudo com este filme, aliás morreu no ano em que este estreou. De facto, e a partir desta data, começa a ter-se mais em conta o papel da adolescência e da juventude – entrou de moda. Não é por acaso que durante a década seguinte se deu o domínio a juventude, foi o surgimento da idolatria do rock e os movimentos que daí despertaram.