Quarta-feira, Novembro 30, 2005

Partiram da mesma fonte mas deram origem a rios diferentes



Truffaut e Godard juntos! parece impossível, mas de facto aconteceu - trabalharam em conjunto no ano de 1957 para a realização da curta-metragem Histoire d'eau. Um pequeno filme de 18 minutos, muito ao estilo Nouvelle vague (não fossem estes dois senhores os principais criadores deste estilo), com um toque todavia presente de Felinni. A partir de um documentário do mesmo ano sobre as inundações na região da Îlle de France, Truffaut apresenta-nos as aventuras de uma rapariga que quer ir para Paris. Temos desta forma um romance passado na França bucólica, repleta de água, com os rios a transbordar. O enredo em si demonstra a tranformaçao da sociedade, uma nova forma de empreender o amor, mais despegada, e sem os trâmites tradicionais. Uma rapariga de galochas decide perante o diluvio que circunda as suas terras tomar uma boleia... assim inicia o romance. No decurso da viagem, vamo-nos divertindo com o discurso da bela moça - ah! esqueci-me! apesar de ver-mos as imagens, todo o som provém da narração da rapariga, quedando a ideia de um filme mudo -, sim porque as situações e conversas são todas elas pulcras e entretidas; os seus comentários: em relação as expressões do rapaz que a conduz, ao seu carro, às conversas deste sobre o carro, à paisagem, ao romance e a Paris...
Foi também provavelmente a primeira e última vez (pelo menos até finais de oitenta), que Godard se permitiu a ter num seu filme uma piada sobre a Rússia: "... Paris é provavelmente a única cidade onde se entra numa rua chamada Lenine e se saí noutra chamada Nicolau II"

Quarta-feira, Novembro 23, 2005

"Cada vez há mais mortos... e parece sempre que estes foram melhores que nós" (Fernando Trueba)


Ontem estive numa conferência, no Instituto Francês de Madrid, sobre Truffaut, foi o lançamento para espanhol da biografia do mesmo, efectuada por Serge Toubiana e Antoine Baecque. Serge Tobiana é o director da cinemateca de França e esteve no local a falar do livro e da figura, juntamente com dois cineastas e críticos de cinema espanhóis, Gonzalo Juarez e Fernando Trueba. Descobri coisas muito interessantes, uma delas era o facto de os jovens em França, a juventude irrequieta do Maio de 68, odiarem Truffaut por o considerarem ancient régime - durante toda a década de 70 houve uma guerra entre Truffaut e Godard... mas um conflito feroz, sendo as conferências e as de revistas de cinema o campo de batalha. Fançois isolou-se nos eu escritório durante este período, apenas debatendo por cartas as suas ideias com os seus amigos americanos (Elia Kazan, Hitchcock, etc) A resposta de Truffaut ao Maio de 68, e ao recrudescimento da política, que aliás tomou a sua antiga revista Cahiers du Cinéma (onde se introduziram ideias maoistas e se olvidou por completo a sua verdadeira vocação - o cinema), foi l'Enfant Sauvage - o único filme de Truffaut que acaba bem, apesar de na realidade a história ter acabado mal - é uma chapada de luva branca a cultura versus política, o iluminismo, o período de maior glória da cultura de França, o período em que se passou a história do menino selvagem. Pouco mas tenho a dizer, porque sobre o que ouvi pouco se pode mais comentar, todavia, destaco três frases que me cativaram de Toubiana: "Truffaut conquistava-nos pelo seu charme, charme que era essencialmente composto pela sua timidez... uma conversa pausada e erudita, com longas pausas de reflexão, mas que depois rapidamente adquiriam a fluência"; "Disseram-me que Truffaut estava a morrer - escrevi-lhe, ele respondeu-me com uma caligrafia horrível, torta e feia... Truffaut escria como poucos, muito bem e com uma caligrafia explêndida que lembrava Vítor Hugo e Balzac, algo de fabuloso para um autodidacta que deixou a escola aos 14 anos" e " (...) eu cresci com os filmes de Truffaut, com a figura de Antoine Doisnel que acompanhei através dos filmes desde os seus 15 anos (que eram os meus na altura) até à idade adulta"

Terça-feira, Novembro 22, 2005

Para que lado pende a balança



Por vezes a nossa sociedade contemporânea, tão chegada, tão global, torna-nos mais sós, mais reticentes perante um mundo que se quer cada mas conhecido, obrigando o ser humano a ter estes e aqueles parâmetros, não permitindo muitas vezes a diferença e olvidandando-se cada vez mais do passado. Este é o marasmo que corre nas veias de Travis, um jovem taxista de 26 interpretado por Robert de Niro. Entre as tradições do local onde foi criado e Nova Iorque existe um hiato que impede Travis de se adaptar, sente-se só, a sua profissão foi tornando-o observador e até bastande perspicaz. Com poucos estudos e perante os atavismo próprios de um trabalho que, no seu caso, incide sobre os piores bairros da cidade, sente dores de cabeça frequentes fruto das tradições passadas. Não consegue lidar com as mulheres da cidade; com as "decentes" por falta de tacto e com as "indecentes" porque considera errado a prostituição. Encontra-se no inferno vê todos os pecados, chega a um ponto em que não sabe se de facto esses pecados já estão instituídos. Decide então actuar, limpar a cidade... e sai-se bem.
Scorsese realizou um filme (Taxi Driver, 1976) que retrata a noite novaiorquina dos anos 70, onde as ruas são dominadas, pelos marginiais, prostitutas, pederastras, traficantes etc. A escolha de um táxi é excelente, pois quem melhor do que eles (os taxistas), que trabalham 24 horas, para saber a transformação do mundo - o céu durante o dia e o inferno durante a noite. È uma película forte, com um enredo algo complexo, que nos deixa um pouco confusos acerca de Travis – nunca chegamos a compreende-lo. O momento do tiroteio final é demonstrativo da qualidade do cineasta que apressa e treme a filmagem, dando a ideia de êxtase e descontrolo próprio da situação. Não obstante o tema também sobra espaço para uma farpa política à América da altura, ainda na ressaca do Vietname.

Sábado, Novembro 19, 2005

Un año que vivimos peligrosamente


"En un país musulmán tradicional, la identidad religiosano es una cuéstion opcional; se recibe, junto com el estatus, las costumbres y los hábitos, incluso la futura pareja en matrimonio, del entorno social. En una sociedad así no hay confusión acerca de quien es uno, puesto que su identidad le es dada y confirmada por todas las instituciones sociales, desde la família hasta la mezquita, pasando por el Estado. No puede decirse lo mismo de un musulmán que vive como inmigrante en un sububurbio de Ámsterdam o de París. De repente, la identidad está a disposición de uno; se tiene, al parecer, una capacidad de elección infinita a la hora de decidir hasta qué punto se quiere uno integrar en la sociedad no musulmana que lo rodea.
En su libro Globalized Islam (2004), el académico francés Olivier Roy sostiene de manera convincente que el radicalismo es prescisamente el producto de la "desterritorialización" del Islam, que despoja a la identidad musulmana de todos los apoyos sociales que recibe en una sociedad musulmana tradicional. (...) Los europeos contemporáneos otorgan poca importancia a la identidad nacional en favor de una europeidad abierta, tolerante, "pos nacional". Pero los holandeses, alemanes, franceses y demás, retienen un fuerte sentido de su identidad nacional y, en grados diferentes, se trata de una identidad que no resulta accesible para la gente que llega de Turquía, Marruecos o Pakistán. La integración está aún más dificultada por el hecho de que las leyes laborales europeas han hecho que para los inmigrantes recientes o para sus hijos no sea sencillo encontrar empleos poco cualificativos. Una proporción significativa d elos inmigrantes vive gracias a subsidios, lo que significa que no tienen la dignidad de contribuir con su trabajo a la sociedad que los rodea (...)"

Francis Fukuyama
ABC 17/11/2005

Terça-feira, Novembro 15, 2005

Truffaut em Lisboa


La peau douce (1964) é mais um filme de Truffaut na linha do cinema italiano dos anos 50, uma tentativa de passar o romance clássico para o cinema, isto é nota-se que existe uma preocupação em seguir certos modelos base usados em Dostoiewski e Balzac (aliás em grande medida este filme é dedicado a Balzac, foi graças a ele que a personagem principal partiu para Lisboa - a famosa conferência sobre Balzac e o dinheiro).
Como li num artigo na Magazine do El Mundo, a relação entre o homem e a mulher é monogâmica por excelência, porém, é uma monogamia temporal, que completa um ciclo de quatro anos, ou seja, equiparável ao ciclo reprodutor dos nossos antepassados; compreende o espaço do enamoramento e segue o período de gestação do filho e o período de autonomia, por volta dos dois anos e meio. Depois passados os efeitos narcóticos do romance, sentimo-nos livres de vínculo e fidelidade. Somos, tal como os primeiros sapiens monogâmicos estacionais e sussesivos, na medida em que, após o fim de uma relação, temos tendência para outra na qual iremos cair na mesma monogamia estacionária. Ora, é sobre isso que trata o filme. Pierre, um conhecido ensaísta, casado há 12 anos e com uma filha, parte para uma conferência em Lisboa onde desenvolve uma enorme atracção por uma jovem hospedeira de bordo (Nicole), regresado a Paris e à enfadonha vida matrimonial, volta a procura-la e entra-mos assim numa decálage de acontecimentos que culminam com a sua separação de Franca sua esposa. Todavia, o edílio de Pierre entre as mulheres parece agora ter um fim, a sua tendência natural, já referida, para uma nova relação monogâmica assusta Nicole, que prefere os encontros casuais, algo que Pierre, talvez por força do hábito de casado nega. Decidiu então voltar para a Franca, contudo, esta tinha outros planos - assassina-lo. De facto, Franca foi a grande revelação do fim do filme, quer em termos de acção quer em termos de representação - excelente. Após ter descoberto um recibo de fotografias no bolso do casaco do marido - que tinha ido para secar antes da separação - e descoberto as fotografias deste com Nicole no campo, decidiu que tinha de mata-lo, um fim trágico e corajoso ( Truffaut gosta muito de atribuir carácter forte e decisivo as mulheres, quem não se lembra do fim em La femme d' à côté)

Sexta-feira, Novembro 04, 2005

Esteja onde estiver, onde esteja Truffaut eu lá estou


Jules et Jim (1962) é um daqueles filmes de mão cheia, considerado pelos críticos - devido à excelente combinação narrativa com o recorte técnico cinematográfico - um dos melhores filmes de sempre, a par de Citizen Kane[1]. Nota-se neste filme, um dos percursores da Nouvelle Vague, a influência que o cinema italiano dos anos 50 detém sobre Truffaut, podemos vislumbrar aqui um Dolce Vitta ou um l'Avventura; no que diz respeito à história é então por demais evidente - como enquadrar o amor na monogamia e no casamento. Esta é a história de um romance a três (algo que está tão de moda no nosso cinema contemporâneo, cito apenas, e a titulo de exemplo, os Sonhadores e Os Edukadores, dois filmes que tiveram alguma saída).
Esta é a história de Jules, um jovem austríaco e Jim um jovem francês que vivem num idílio diletante no Paris da primeira década de 1900; a situação modifica-se com o surgimento de uma nova personagem - Catherine, que arrebata o coração de ambos (mais o de Jules numa primeira fase), Jules acaba por se envolver com ela, e o diletantismo parisiense passa agora a ter três figuras. Catherine é o centro de todas as atenções, é ela quem decide o que fazer, quando devem começar, quando devem parar, para onde devem ir, sobretudo gosta de ser notada, recordo aqui dois episódios: o primeiro quando Jules e Jim jogam ao dominó e não ouvem o que Catherine disse, esta de rompante bofeteia Jules e interrompe o jogo; segundo após ter assistido a um peça de teatro contemporânea sueca, os três discutem o conteúdo, enfadada com a apreciação negativa dos rapazes, Catherine atira-se ao Senna, causando um susto de morte aos seus companheiros. Tirando estes casos a maior parte do tempo era passado com gargalhadas, divertimento, amor, entre Jules e Catherine, e contemplação, de Jim para com Catherine.
Em 1914 dá-se a I Guerra Mundial[2], meses antes Jules e Catherine tinham-se casado e ido para a Áustria, a separação dos dois amigos durou assim quase cinco anos entrincheirados no Somme e na Ucrânia. Terminada a guerra Jim decide ir visitar o casal amigo e sua filha, esperando encontrar uma vida estabilizada de casal, inspiradora para o seu romance com Gilberte, Jim encontra o revés, apesar de viverem juntos Jules e Catherine já não se vêem como marido e mulher, Catherine sempre que Jules a irritava arranjava um amante, a situação ia-se tornando cada vez mais insuportável, no momento em Jim chegou, Catherine andava a ser cortejada por um antigo amigo de ambos dos tempos de Paris. Jim neste ambiente deixou-se levar por uma antiga paixão que detinha por Catherine, Jules acolhe com bons olhos esta relação, encontra nela uma forma de manter perto de si a sua filha e a sua mulher.
O retorno, por questões de trabalho, de Jim a Paris, voltam novamente a revelar a instabilidade de Catherine, de tal forma que, apesar do amor, Jim opta pela estabilidade de Gilberte. Os três amigos voltam a reencontrar-se, Jules com a sua atitude germânica distante para com os devaneio da mulher e Catherine num estado de ansiedade cada vez maior. Jim por sua vez perdeu o entusiasmo pelos antigos amigos, Catherine ressente-se... certo dia, num dos passeios que os três faziam de carro, com Jim no carro e Jules na esplanada de um café a ver, conduzir o carro direito ao rio, mais uma vez tentou uma atitude drástica para chamar a atenção, só que desta vez foi definitivo.
Truffaut conseguiu assim um filme forte, intenso, que joga com a vulnerabilidade sentimental do ser humano, as fraquezas, as necessidades, os desejos e os caprichos, tudo perfeitamente enquadrado na tela pelo rigor e a técnica cinematográfica de alguém que, desde os quinze anos, se dedica quase exclusivamente à sétima arte - François vive e respira cinema.

[1] Ao qual Truffaut teceu o seu elogio no seu filme de 1973 La nuit américane.
[2] Foi comum, durante esta década e a passada (anos 50 e 60), a existência de uma referência ao fenómeno da guerra na narrativa cinematográfica utilizando-se frequentemente a I Guerra Mundial como analogia à II Guerra Mundial, todavia presente à data, por isso pouco retratada. Perto do fim do filme Truffaut faz uma pequena alusão ao surgimento do nazismo na Alemanha, através de uma notícia.