Jules et Jim (1962) é um daqueles filmes de mão cheia, considerado pelos críticos - devido à excelente combinação narrativa com o recorte técnico cinematográfico - um dos melhores filmes de sempre, a par de
Citizen Kane[1]. Nota-se neste filme, um dos percursores da
Nouvelle Vague, a influência que o cinema italiano dos anos 50 detém sobre Truffaut, podemos vislumbrar aqui um
Dolce Vitta ou um
l'Avventura; no que diz respeito à história é então por demais evidente - como enquadrar o amor na monogamia e no casamento. Esta é a história de um romance a três (algo que está tão de moda no nosso cinema contemporâneo, cito apenas, e a titulo de exemplo, os
Sonhadores e
Os Edukadores, dois filmes que tiveram alguma saída).
Esta é a história de Jules, um jovem austríaco e Jim um jovem francês que vivem num idílio diletante no Paris da primeira década de 1900; a situação modifica-se com o surgimento de uma nova personagem - Catherine, que arrebata o coração de ambos (mais o de Jules numa primeira fase), Jules acaba por se envolver com ela, e o diletantismo parisiense passa agora a ter três figuras. Catherine é o centro de todas as atenções, é ela quem decide o que fazer, quando devem começar, quando devem parar, para onde devem ir, sobretudo gosta de ser notada, recordo aqui dois episódios: o primeiro quando Jules e Jim jogam ao dominó e não ouvem o que Catherine disse, esta de rompante bofeteia Jules e interrompe o jogo; segundo após ter assistido a um peça de teatro contemporânea sueca, os três discutem o conteúdo, enfadada com a apreciação negativa dos rapazes, Catherine atira-se ao Senna, causando um susto de morte aos seus companheiros. Tirando estes casos a maior parte do tempo era passado com gargalhadas, divertimento, amor, entre Jules e Catherine, e contemplação, de Jim para com Catherine.
Em 1914 dá-se a I Guerra Mundial
[2], meses antes Jules e Catherine tinham-se casado e ido para a Áustria, a separação dos dois amigos durou assim quase cinco anos entrincheirados no Somme e na Ucrânia. Terminada a guerra Jim decide ir visitar o casal amigo e sua filha, esperando encontrar uma vida estabilizada de casal, inspiradora para o seu romance com Gilberte, Jim encontra o revés, apesar de viverem juntos Jules e Catherine já não se vêem como marido e mulher, Catherine sempre que Jules a irritava arranjava um amante, a situação ia-se tornando cada vez mais insuportável, no momento em Jim chegou, Catherine andava a ser cortejada por um antigo amigo de ambos dos tempos de Paris. Jim neste ambiente deixou-se levar por uma antiga paixão que detinha por Catherine, Jules acolhe com bons olhos esta relação, encontra nela uma forma de manter perto de si a sua filha e a sua mulher.
O retorno, por questões de trabalho, de Jim a Paris, voltam novamente a revelar a instabilidade de Catherine, de tal forma que, apesar do amor, Jim opta pela estabilidade de Gilberte. Os três amigos voltam a reencontrar-se, Jules com a sua atitude germânica distante para com os devaneio da mulher e Catherine num estado de ansiedade cada vez maior. Jim por sua vez perdeu o entusiasmo pelos antigos amigos, Catherine ressente-se... certo dia, num dos passeios que os três faziam de carro, com Jim no carro e Jules na esplanada de um café a ver, conduzir o carro direito ao rio, mais uma vez tentou uma atitude drástica para chamar a atenção, só que desta vez foi definitivo.
Truffaut conseguiu assim um filme forte, intenso, que joga com a vulnerabilidade sentimental do ser humano, as fraquezas, as necessidades, os desejos e os caprichos, tudo perfeitamente enquadrado na tela pelo rigor e a técnica cinematográfica de alguém que, desde os quinze anos, se dedica quase exclusivamente à sétima arte - François vive e respira cinema.