O padrinho

The Godfather, apesar de ser uma trilogia, não faz sentido ser descrito em separado, é uma história com seguimento, uma fita repartida por três e colocada na bobine à vez; bem, poderia de facto, individualizar-se cada um dos três filmes, caso se efectuasse uma observação pormenorizada, não é esse o meu objectivo.
Apesar do enredo ser passado nos EUA, o filme está impregnado das tradições e costumes da Europa de inícios do século XX, não só italianos mas sim uma visão mais alargada da Europa do Sul, banhada pelo mediterrâneo. Um velho continente que, ao tempo, era dominado por valores católicos, a família e a honra – factores que muitas vezes, para serem defendidos chocavam com a própria ideologia da Igreja, que fechava os olhos coniventemente. É fundamentalmente este o aspecto que mais me chama à atenção neste filme e creio que, sendo Coppola descendente de italianos deu particular enfoque a esta situação. Uma passagem da vida siciliana para outro país, formas de estar que se mantêm idênticas desde finais do século XVIII, após a unificação por Garibaldi, uma Sicília ao jeito do Il Gattopardo, esse extraordinário filme dos anos 60 com Burt Lancaster e Alan Delon.
Os três filmes contam a ascensão de Michael Corleone (Al Paccino), que se inicia em meados do século XX e se prolonga até perto do final do mesmo. Todavia, Coppola conta a história desde o princípio, desde a chegada dos pais de Michael e a entrada da família no mundo do crime como o seu pai Vitto Corleone (Marlon Brando – a quem sempre se associa como o padrinho devido à sua esplêndida assimilação da personagem e o charme da voz a esta aplicada). A representação é uma das glórias de Godfather, Coppola elegeu do melhor para os principais papéis (apenas cometeu o pecado, provavelmente inevitável para um pai, de colocar a sua filha no terceiro filme e num papel de relevância – a filha de Michael): Marlon Brando, Robert Duval, Diane Keaton, Robert de Niro, Al Paccino, Andy Garcia. Actores queridos para o realizador, sobretudo os dois primeiros que o seguiram, provavelmente no seu filme de mais mediático – Apocalipse Now (1976). De facto, Brando, apesar de já em fim de carreira, realizou com Coppola, duas das suas melhores actuações, provavelmente por o realizador lhe deu liberdade para isso, o fim do Apocalipse Now e do Godfather I (1972), são momentos de extrema beleza, em que o actor se funde com a realidade; mais tarde veio-se a saber que Brando actuou de improviso nesses momentos, tornando-os míticos.
A máfia dos Estados Unidos detém rasgos de cultura medieval, vive essencialmente da vingança, da pena de talião e de favores como se de contratos feudais se tratassem. Não são de todo factores estranhos, apenas a forma como a sociedade rural europeia, sublinho, rural, vivia (ainda hoje podemos verificar este tipo de mentalidade; por exemplo no Norte de Portugal ainda existem “guerras” pelo acesso à água, famílias que se odeiam, e de vez em quando lá ouvimos no telejornal a notícia de uma morte).
Os três filmes apresentam sempre o mesmo atavismo no seu final, com o terminar da película surge sempre a tragédia e morte. Não obstante, ficou bem patente o triunfo da inteligência, como consciência de que o que nos faz evoluir e sobreviver é muitas vezes o cérebro e não o músculo. É segundo estes princípios que Vitto e Michael chegaram ao poder, todavia, o futuro da família ficou uma incógnita, o sucessor de Michael era tal como o seu pai, Sonny – irmão mais velho de Michael – demasiado emotivo e menos cerebral. Sem embargo, é um factor que já nos transcende e mesmo ao próprio Coppola, porque sobretudo esta é a história de Michael, o seu futuro pouco importa.
