Relatos de uma viagem (no tempo) (I)

Algures em Moscovo, perto da estação de metro Park Kultury. A tarde empurra a manhã, impaciente. São horas de almoço. O céu nublado e uma brisa fresca, que em vão tenta varrer o ar conspurcado pelo circular nervoso de um trânsito que faria da larga avenida Konsomolets uma simples rua, não fosse o simples peão aperceber-se da sua dimensão quando a atravessa, após um interminável minuto de espera.
Ao longo da avenida, procuro uma perpendicular, a rua Lev Tolstoi. Adivinhando o longo caminho ainda por percorrer, decido dar ouvidos às reivindicações de um estômago sempre rezingão. Tem sorte, os quiosques são omnipresentes. Penso que as lojas de flores serão, contudo, em maior número. Mas não é de flores que ele se alimenta...
Até consigo perceber. Sim, porque as longas avenidas, especialmente se percorridas a pé, oferecem-nos uma excelente oportunidade de reflexão, perturbada, por vezes, é certo, pela contemplação de um edifício, de um pormenor arquitectónico, pela observação de uma estranha silhueta que se cruza connosco. Mas, dizia, que ao caminhar tentava perceber o porquê desta particularidade, esta omnipresença de quiosques onde abundam a cerveja, as pirogui, servidas com os mais diversos sabores (doces, carnes diversas, etc.), as bolachas, os chocolates, os doces e onde raramente se consegue vislumbrar a face de quem nos atende, escondida por detrás de uma minúscula abertura, sempre com afirmações e respostas telegráficas e como que disparadas de rajada. Os gestos são lestos, o olhar distante, mas curioso após as minhas primeiras palavras, cuja pronúncia, suponho, deve soar algo engraçada. E o porquê reside precisamente nas dimensões das avenidas e ruas. Tamanhas distâncias revoltam o estômago de qualquer um. São como que postos de gasolina.

2 Comments:
Ena, que novidade. E o estilo, outro ena e outra novidade.
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