NÃO
Lembro-me de me espantar, nos tempos os tempos em que vivi em Madrid, com a estreita relação que Espanha mantinha com os países de habla hispana. Pude verificar um florescimento do intercâmbio de ideias, de literatura e de música, não apenas num sentido único (tal como ocorre no nosso país, onde estamos sempre receptivos em relação às novidades do Brasil, enquanto que de Vera Cruz, nada é esperado de Portugal), mas sim num movimento recíproco.
Penso que da nossa parte tudo deve ser feito no sentido de incrementar no Brasil – mas também nos restantes pais da CPLP – um maior interesse pela nossa cultura e pela circulação de ideias, arte, literatura, etc., no nosso idioma comum. Não obstante, estou em crer que este acordo ortográfico não será a solução para esse incremento, pois no passado já se demonstrou infrutífero, ademais as cedências que teriam de ser feitas actualmente são demasiado gravosas para a língua. Efectivamente, entre a Espanha e os restantes países latino-americanos de mesma expressão existe um acordo, ou pelo menos, um respeito pelas normas da Academia que, apesar das expressões próprias de cada país, permite que todos sigam uma regra comum. Mas não se tentou já anteriormente tal processo para a língua portuguesa? 1911 – Falhou. 1931 – Falhou. 1945-46 – Falhou.
Observa-se por parte do Brasil ao facilitismo tal que descaracteriza a nossa expressão nativa e inclusivamente a nossa essência. Um dos nossos motivos de orgulho (um dos poucos que nos restam) é efectivamente o português, a sua complexidade vocal e gramatical que nos permite reproduzir, com uma facilidade fora do comum, outros idiomas e que faz invejas dos nossos parceiros latinos. Ora, no Brasil ocorre precisamente o oposto, de tal modo que, nos países do Cone Sul, existem piadas acerca da dificuldade que os brasileiros têm para com os idiomas, tal como nós o fazemos em relação aos espanhóis. Não sei até que ponto existe uma relação entre a simplificação do português operada no Brasil e a falta de desenvoltura na expressão de idiomas estrangeiros – deixo esta questão para os linguistas. No entanto, sinto que, no âmbito pessoal, o facto de ter aprendido, lido e falado o português de Portugal contribuiu para que, como maior facilidade, me pudesse expressar por via oral e escrita em mais três idiomas.
O Brasil como Moçambique, Angola, G. Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Timor, têm todo o direito de “inventar” a sua forma de falar o português. Portugal não pode impedir esse processo, pode apenas influenciar através do seu sotaque, expressões e literatura, do mesmo modo que jamais deverá ceder a pressões por parte desses países – ao fim ao cabo foi aqui que nasceu o português que diabo!